quinta-feira, 14 de julho de 2011

Momentos de escolhas

As Notícias e o Mel

Não me canso desta história. Me toca profundamente. A reflexão é sobre o desafio diário das escolhas. Muitas vezes, elas pesam demais, tornando nossos passos infinitamente difíceis. Por isso adoro essa história de Marina Colasanti, chamada "As Notícias e o Mel". Que maravilhosa escolha a desse rei...

As notícias e o Mel

Um dia o rei ficou surdo. Não como uma porta, mas como uma janela de dois batentes.  Ouvia tudo do lado esquerdo. Do lado direito, não ouvia nada. A situação era incômoda, Só atendia aos ministros que sentavam de um lado do trono. Aos outros, nem respondia. E até mesmo de manhã, se o galo cantasse do lado errado, Sua Majestade não acordava e passava o dia inteiro dormindo.
Foi quando mandou chamar o gnomo da floresta. E o gnomo, obediente, apareceu na corte. Veio voando, com suas asinhas. Tão pequeno que, embora todos avisados de sua chegada, quase o confundiram com um inseto qualquer.
Chegou e logo se entendeu com o rei, estabelecendo um trato.  Ficaria morando no ouvido direito e repetiria para dentro – e bem alto – tudo o que ouvisse lá de fora. Tendo asas, e desejando, poderia aproveitar seu parentesco com as abelhas para fabricar no ouvido real alguma cera e um pouco de mel. O trato funcionou às mil maravilhas. Tudo o que o gnomo ouvia, repetia em voz bem alta nas cavernas da orelha, e o eco e a voz do gnomo chegavam até o rei, que passou a entender como antigamente, de lado a lado.
Correu o tempo. Rei e gnomo, assim tão vizinhos, foram ficando cada dia mais íntimos. Um já sabia tudo do outro e era com prazer que o gnomo gritava e era com prazer que o rei ouvia o zumbidinho das asas atarefadas no fabrico da cera e do mel. Uma certa doçura começou a espalhar-se do ouvido real para a cabeça e o rei foi ficando, aos poucos, mais bondoso.
Foi essa a causa da primeira mentira.
O Primeiro Ministro deu uma má notícia no ouvido esquerdo e o gnomo, não querendo entristecer o rei, transmitiu uma boa notícia no ouvido direito.
Foi essa a primeira vez que o rei ouviu duas notícias ao mesmo tempo. Foi essa a primeira vez que o rei escolheu a notícia melhor ...
Houve outras depois.
Sempre que alguma coisa ruim era dita ao rei, o gnomo a transformava em alguma coisa boa. E sempre que o rei ouvia duas notícias, escolhia a melhor delas.
Aos poucos, o rei foi deixando de prestar atenção naquilo que lhe chegava do lado esquerdo, E até mesmo de manhã, se o galo cantasse desse lado e o gnomo não repetisse o canto do galo, Sua Majestade esquecia-se de ouvir e continuava dormindo tranqüilo até ser despertado pelo chamado do amigo.
De um lado o mel escorria. Do outro, chegavam as preocupações, as tristezas, e todos os ventos maus pareciam soprar à esquerda de sua cabeça.
Mas o rei tinha provado o mel e a doçura era agora mais importante do que qualquer notícia. Entregou o trono e a coroa para o Primeiro Ministro. Depois chamou o gnomo para junto da boca e murmurou-lhe baixinho a ordem.
Obediente, o gnomo voou para o lado esquerdo e, aproveitando seu parentesco com as abelhas, fabricou algum mel e abundante cera, com a qual tapou para sempre o ouvido do rei.

domingo, 10 de julho de 2011

O mundo inteiro

Sábado contei histórias na Livraria da Vila. Como sempre, uma experiência maravilhosa. Crianças participantes, pais atentos e felizes. Foi muito legal. Contei três histórias, duas delas de livros lindos: "Rinocerontes não comem panquecas", cuja protagonista, a Daisy (além do rinoceronte, é claro), não tinha a devida atenção de seus pais. E quando falei que isso era muito comum, vi olhinhos arregalados procurando seus pais... sem comentários. Mas o que mais me impressionou foi que a última história, na verdade, era um poema maravilhoso sobre o mundo. E, mesmo que as histórias que contei fosse bem engraçadas, o poema chamou muita atenção de todos. E quando peguei o livro para mostrar, todas as crianças se debruçaram sobre ele. Pois é, quem disse que crianças não gostam de poemas?  Por isso coloco este aqui, e recomendo que todos tenham o livro, pois suas ilustrações são um outro poema. A autoria é de Liz Garton Scanlon, com ilustrações de Marla Frazee. Vale a pena.



O mundo inteiro

A rocha, a pedra, a areia, o seixo
O braço, o ombro, o rosto, o queixo
Um buraco prá cavar, uma concha prá guardar
O mundo inteiro é um vasto lugar.

O mel, a abelha, o favo, o zumbido
O sabugo, a espiga, o milho cozido
O tomate vermelho, a erva de cheiro
O mundo inteiro é um canteiro.

O tronco, o toco, o ramo, o carvalho
Trepar no alto, ficar sobre o galho
Ver a manhã passar neste abrigo
O mundo inteiro é novo e antigo.

A rua, a via, a travessa o caminho
O navio, a jangada, a vela, o barquinho
O ninho, a ave, a nuvem cinzenta
O mundo inteiro sopra e venta.

Corre, tropeça, escorrega, olha a lama!
Vira o balde, derruba, esparrama
A sorte volta em outro momento
O mundo inteiro segue em movimento.

A mesa, o prato, a faca, o saleiro
A barriga faminta, o jantar vem ligeiro
O pão, a farinha, o caldeirão fervente
O mundo inteiro é frio e quente.

O Sol se pondo, a sombra repentina
O fim do dia, o grilo, a cortina
Um fogo leva o frio embora
O mundo inteiro descansa uma hora.

Os avós, os pais, os parentes, os primos
O piano, a harpa o violino
De colo em colo segue o bebê
O mundo inteiro somos eu e você.

Tudo o que se escuta, sente e vê
O mundo inteiro é tudo isso
Tudo isso somos eu e você

A paz, a esperança e o amor verdadeiro
NÓS SOMOS O MUNDO INTEIRO.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O verdadeiro Patinho Feio e outras histórias

Foi uma delícia participar do Programa Que História É Essa? da queridíssima Elaine Gomes, no último sábado. Como sempre, foi um bate papo alegre, muita energia e troca de histórias. Mas o objetivo mesmo era falar de Hans Christian Andersen, que eu adoro. Falamos muito sobre ele, o verdadeiro Patinho Feio, segundo o próprio. E as histórias? Bem, não poderia deixar de contar Soldadinho de Chumbo, uma das mais belas histórias de amor que conheço. Também A Roupa Nova do Rei, sempre atualissíma. E a que não poderia faltar, O Patinho Feio que, escrita em 1837, conta dos diferentes e da crueldade praticada por tantos contra outros tantos, com uma abordagem muito clara daquilo que hoje conhecemos como bullying.  Quer conferir? É só clicar aqui. http://www.vimeo.com/25904929 .

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Homem Atento

Já é clichê dizer que prestamos atenção a todos, menos a nós mesmos. Padeço desse mal há anos, e pago um ônus alto por isso. Tento mudar, tento. Tentamos. Todos nós. E para nos lembrar de que isso é vital, coloco aqui este belíssimo conto de Marina Colasanti.
 
O Homem Atento

Por mais que recuasse com a memória, aquele homem não encontrava em sua vida um só momento em que não estivesse estado atento.  Atento a tudo, plenamente, abertos os sentidos como se o seu corpo fosse a porta de entrada do mundo. Não dormia. Mal comia. Os olhos sempre despertos viam o que acontecia à sua frente, e pareciam ver com igual clareza o que acontecia atrás, ou mesmo longe deles. O nariz captava todos os cheiros, decifrava todos os perfumes. Os ouvidos distinguiam os componentes do silêncio tão bem quanto os da algazarra. Sentado numa almofada, assim prestava atenção, certo de que, enquanto tomasse conhecimento de tudo o que acontecia, estaria controlando a organização do mundo. Imóvel, sem permitir que qualquer distração viesse perturbá-lo, abrindo em sua vigilância uma brecha por onde pudesse entrar a desordem.
      E passados tantos anos em idêntica posição, chegou a tarde em que ouviu passos na rua, aproximando-se da sua casa. E porque eram lentos, soube que eram de um velho. E porque se arrastavam de leve, soube que o velho estava cansado. E porque nunca os tinha ouvido antes, soube que ele vinha de longe. E quando afinal os passos pararam diante da sua porta, preparou-se para ouvir as batidas.
     Toc, toc, ecoaram nos cômodos as pancadas. Abriram os criados, deixando que o velho entrasse com seu cheiro de poeira e calor do sol ainda grudado nas pregas das roupas. Que se refrescasse, disseram trazendo-lhe um jarro e taça.
    O viajante levava justamente a água aos lábios, quando viu o Homem atento. Imóvel na penumbra como se ignorasse sua chegada, mantinha-se  entregue á sua tarefa, olhos abertos sem bater pestanas. Aproximou-se o viajante. O Homem o olhava, sem deixar de ver além e aquém dele, sem deixar que sua presença sequer encrespasse a transparência da concentração. O Homem o olhava, mudo.
    E o viajante teve pena.
    Afastou-se para um lado, os olhos do homem não o acompanharam. Afastou-se para o outro, os olhos continuaram fixos à frente. Mas quando o viajante colheu uma centopéia no vaso de plantas, bastou ao Homem Atento ouvi-la caminhar sobre aquela mão, para saber que lhe faltava uma pata. E quando, afastando-se até o jardim, o viajante trouxe um camaleão, bastou ao Homem Atento ver sua cor, para saber em que galho estivera deitado.
   Então o viajante pegou a um canto um espelho de cobre e o colocou diante do olhar do Homem Atento. Na superfície polida, um rosto pálido como a lua, descorado por longa penumbra, encarou o Homem Atento. Mas não bastou ao Homem Atento olhar os olhos nas olheiras fundas, as brancas têmporas, para reconhecer-se. Pois há tantos anos não se via, que havia esquecido seu rosto.
    E agora, diante daquele reflexo, surpreendia-se que fosse seu. A tal ponto, que precisou levantar a mão para tocar-se, certificando-se de que, sim, a mão que se erguia no espelho era a mesma que lhe alisava a barba.
    Prestando atenção no mundo, deixara de prestar atenção em si. Nunca mais se olhara, sequer espelhado na água, Nunca mais acariciara a pele. Descuidara-se de contar o tempo. Mas o tempo havia passado apesar dele, e o rosto que acreditava jovem já não existia. Ali estava a brecha, nunca pressentida, por onde a desordem teria entrado no mundo, se apenas por um minuto ele estivesse em seu controle.
   Com voz que há tantos anos não ouvia, o Homem pediu aos criados que lhe trouxessem um pente. Estendeu até o marfim os dedos magros. Depois, pela primeira vez na vida, distraiu-se. Fechando os olhos, deixou a sombra de um sorriso tocar-lhe a expressão. E inclinando a cabeça para trás, longamente penteou os cabelos que lhe desciam pelos ombros.


domingo, 26 de junho de 2011

Um arco-íris de diversidade

A diversidade foi para mim uma lição de amor. Muito amor e respeito. muito amor e coragem, Foi sim minha grande lição de vida. Por isso, essa história, que adaptei do livro de Geert de Kockere, um belga que estudou para ser professor, tornou-se jornalista e hoje escreve para crianças.
Adorei essa história.


Azul

Ana é uma rainha. Mas ninguém sabe disso. Só ela.  Ana gosta muito de azul. Tudo em sua vida é azul. Pela manhã sai de sua cama azul-escuro, toma café em sua xícara azul-claro. Coloca seu lindo vestido azul celeste e sai para seu jardim, cheio de belas flores azuis de todos os tons. Ninguém sabe porque Ana gosta tanto de azul. Nem ela mesma sabe.
Ana também gosta de coisas malucas: em sua casa azul escura, à beira do mar azul, ela coleciona coisas esquisitas, como um tijolo azul-escuro que tem soluços, uma cabeça azul-clara nas nuvens e um peixinho azul-escuro que canta ópera.

Um belo dia, quando Ana estava na praia procurando conchinhas azuis, se deparou com o rei Amarelo-Ouro.  Com seus pés amarelos descalços. Ele disse “ohh!’, e nada mais. No dia seguinte, o rei Amarelo-Ouro volta à praia. E lá estava Ana novamente. Ele novamente diz “oh!”, e nada mais. Mas Ana gosta assim mesmo. E todos os dias, a Rainha Ana Azul se encontra com o  Rei Amarelo-Ouro.
Ana gosta do Rei Amarelo-Ouro e talvez até queira se casar com ele. Mas não sabe se um dia vai gostara de amarelo. “O amor é azul”, pensa Ana.  “Pois o mar é azul e o amor é tão profundo quanto o mar”.  

Mas ela gosta tanto do rei Amarelo-Ouro, que decide treinar bastante para gostar do amarelo. E assim, no seu bule azul-escuro, ela pinta flores amarelas. As cadeiras da mesa azul ela pinta de amarelo. E quando Ana já acha que gosta um pouquinho de amarelo, ela põe uma blusa azul com bolinhas amarelas e um sapato azul com cadarços amarelos. “Amarelo é bonito. Não tanto quanto o azul, mas é bonito”, decide Ana. E sai para a praia em busca do rei Amarelo-Ouro.
Bem na hora, pois o rei já está na praia a esperá-la, com seus pés amarelos descalços. 

E aí ele diz para ela “Eu te amo”. E Ana então mostra para ele seu sapato azul com cadarços amarelos. E ele mostra para ela sua coroa dourada, com bolinhas azuis.
E assim, eles conversam, conversam, conversam. Palavras azuis e amarelas misturadas. Da manhã amarelo-ouro até à noite azul-escura.
E assim, eles se casam. E vão morar em um palácio amarelo-ouro à beira do mar azul-profundo.

Um tempo depois, eles têm filhos. Mas não são crianças comuns. São crianças verdes. Exceto Amanda, que é azul como Ana. Quando Amanda cresce, casa-se com o Príncipe Noite Vermelha. E do casamento nascem crianças roxas. Exceto Vinícius, que é vermelho como o pai. E quando cresce, Vinícius casa-se com Laura. E nascem crianças cor de laranja, exceto Alice, que é amarela como Laura.

Agora, no palácio amarelo-ouro à beira do mar azul-profundo, moram crianças vermelhas, verdes, amarelas, roxas, crianças cor de laranja e azuis.
E quando chove, e o Sol volta a aparecer, elas pulam juntas, formando um grande arco-íris sobre o palácio.

domingo, 19 de junho de 2011

Palavras dos contadores de histórias

Me interesso muito sobre a ancestralidade e a oralidade das histórias. É um assunto que tem me levado a buscar pesquisadores, escritores e contadores de historias. Em meio às leituras, novamente me deparei com esse lindo conto. Tão conciso quanto singelo, é um conto maravilhoso recolhido da tradição oral africana.


Conta-se na África Ocidental que não havia histórias. E por isso não havia também sabedoria. O mundo era muito triste. Por isso, o primeiro contador de histórias foi também um buscador de histórias, que saiu pelo mundo afora acompanhado de um pássaro-escrivão: o marabu. O marabu é o único pássaro que sabe qual das penas do seu traseiro deve ser arrancada para que, com ela se possa escrever – o que faz dele um pássaro especial.

Andaram pelo mato afora, pelas savanas e ao longo dos rios para escutar os ventos, as pedras, as águas, as árvores e os animais. E encontraram muitas pessoas até então desconhecidas, que iam lhe contando as suas histórias.
Munido da pena arrancada de seu traseiro e utilizando uma tinta feita de água, pó de carvão e goma arábica, o marabu-escrivão anotava cuidadosamente todas as histórias que escutava. E o buscador e contador de histórias caminhava e pensava “não vou conseguir me lembrar de todas essas histórias”. Mas o marabu continuava a ouvir e a escrever.

Quando, depois de muito tempo, voltaram para casa, o buscador de histórias obteve a solução para aquilo que o preocupava. Seguindo o conselho do marabu, encheu de água uma grande cabaça e nela mergulhou todas as histórias escritas.  Durante toda a noite, naquela cabaça – que na África e chama canari – as palavras escritas com tinta se dissolveram na água. No dia seguinte, o marabu mandou que o contador de histórias bebesse todo o conteúdo daquela canari.

Assim, todas as histórias bebidas tornaram-se histórias sabidas.

 E se você, por acaso, precisar beber uma história, escute o meu conselho: beba tudo. Não deixe nada no fundo do copo, porque isso poderia provocar um branco na sua memória.

E essa é a razão pela qual todos os contadores de histórias sempre foram também bons bebedores!!


sábado, 11 de junho de 2011

O eterno pisca-pisca de Emília

O tema de hoje na palestra da Associação Viva e Deixe Viver, através do qual é feito o maravilhoso trabalho de contar histórias para crianças em hospitais, era sobre morte. Um assunto, confesso, bastante delicado para mim, já que a visita dessa indestrutível dama à minha casa me levou para o mais triste e escuro dos mundos. Mas a palestra foi maravilhosa. E foi fantástico redescobrir esse trecho do livro Memórias de Emília - lido e esquecido por mim há muitos anos – em que a boneca define a questão sobre vida e morte para o Visconde de Sabugosa.
E viva Monteiro Lobato !!

O Eterno Pisca-pisca

...a vida, Senhor Visconde, é um pisca - pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu.
Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda,


Até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
pisca e mama;
pisca e anda;
pisca e brinca;
pisca e estuda;
pisca e ama;
pisca e cria filhos;
pisca e geme os reumatismos;
por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre - perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?