segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
Histórias, memórias e amor
Este curta brasileiro intitulado Dona Cristina Perdeu a Memória, de Ana Luiza Azevedo, traz a história do menino Antônio, que descobre que sua vizinha Cristina conta histórias diferentes sobre provavelmente os mesmos fatos de sua vida. Eles passam a se encontrar todos os dias e nesses encontros surge o respeito e cresce a cumplicidade entre eles. Impossível não se lembrar do igualmente lindo livro Guilherme Augusto Araújo Fernandes, só que aqui meio ao contrário. O que é encantador também. Emocionante, singelo e extremamente sacado e inteligente, um filme de sorrir e de chorar..
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
Um conto
Não se desafia a alma feminina. Ela sempre falará mais forte. Traz a
força da Deusa e de sua ancestralidade, seja lá como for. Em algum momento, a
mulher selvagem dará um jeito de reaparecer, reaprender, resurgir, resignificar.
É no que acredito. E é o que vejo quando leio este lindo conto de Marina
Colasanti, publicado no livro Uma ideia toda azul.
Por entre as folhas do verde
Era dia de caçada. O
príncipe acordou contente. Era dia de caçada. Os cachorros latiam no pátio do
castelo. Vestiu o colete de couro, calçou as botas. Os cavalos batiam os
cascos debaixo da janela. Apanhou as luvas e desceu.Lá embaixo parecia uma festa. Os arreios e os pelos dos
animais brilhavam ao sol. Brilhavam os dentes abertos em
risadas, as armas, as trompas que deram o sinal de partida.
Na floresta também ouviram a trompa e o alarido. Todos souberam que eles vinham. E cada um se escondeu como pôde.
Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da tropa, e estava debruçada no regato quando os caçadores chegaram.
Foi assim que o príncipe a viu. Metade mulher, metade corça, bebendo no regato. A mulher tão bonita. A corça tão ágil. A mulher ele queria amar, a corça ele queria matar. Se chegasse perto será que ela fugia? Mexeu num galho, ela levantou a cabeça ouvindo. Então o príncipe botou a flecha no arco, retesou a corda, atirou bem na pata direita. E quando a corça-mulher dobrou os joelhos tentando arrancar a flecha, ele correu e a segurou, chamando homens e cães.
Levaram a corça para o castelo. Veio o médico, trataram do ferimento. Puseram a corça num quarto de porta trancada.
Todos os dias o príncipe ia visitá-la. Só ele tinha a chave. E cada vez se apaixonava mais. Mas a corça-mulher só falava a língua da floresta e o príncipe só sabia ouvir a língua do palácio.
Então ficaram horas se olhando calados, com tanta coisa para dizer.
Ele queria dizer que a amava tanto, que queria casar com ela e tê-la para sempre no castelo, que a cobriria de roupas e jóias, que chamaria o melhor feiticeiro do reino para fazê-la virar toda mulher.
Ela queria dizer que o amava tanto, que queria casar com ele e levá-lo para a floresta, que lhe ensinaria a gostar dos pássaros e das flores e que pediria à Rainha das Corças para dar-lhe quatro patas ágeis e um belo pelo castanho.
Mas o príncipe tinha a chave da porta. E ela não tinha o segredo da palavra.
Todos os dias se encontravam. Agora se seguravam as mãos. E no dia em que a primeira lágrima rolou dos olhos dela, o príncipe pensou ter entendido e mandou chamar o feiticeiro.
Quando a corça acordou, já não era mais corça. Duas pernas só e compridas, um corpo branco. Tentou levantar, não conseguiu. O príncipe lhe deu a mão. Vieram as costureiras e a cobriram de roupas. Vieram os joalheiros e a cobriram de jóias. Vieram os mestres de dança para ensinar-lhe a andar. Só não tinha a palavra. E o desejo de ser mulher.
Sete dias ela levou para aprender sete passos. E na manhã do oitavo, quando acordou e viu a porta aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada, cruzou o pátio e correu para a floresta à procura de sua Rainha.
O sol ainda brilhava quando a corça saiu da floresta, só corça, não mais mulher. E se pôs a pastar sob as janelas do palácio.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A chuva hoje
Estou trabalhando com
o tema chuva há algum tempo. Os pingos vêm e vão, num brincar constante da
magia que essa manifestação da natureza nos dá. E aí, hoje, somos todos
presenteados com esse belo poema de meu amigo, grande escritor, poeta e
educador, Celso Sisto. Pedi para ele, e Celso carinhosamente me permitiu a sua
publicação aqui no blog. Deleitem-se.
Hoje
A chuva está repleta de milagres
faz brotar a cor
no jardim do menino
alimenta o riachinho
dos olhos
na hora alegre
e na hora incerta
e liberta as libélulas
que céleres
logo
esvoaçam
para salpicar
de asas
os banhos
coletivos.
A melhor brincadeira
tem estado líquido
e todo menino
tem sempre
um pacto com
a transparência
das águas.
Celso Sisto
13 de janeiro de 2014
Ilustração de Vickie Wade
tem estado líquido
e todo menino
tem sempre
um pacto com
a transparência
das águas.
Celso Sisto
13 de janeiro de 2014
Ilustração de Vickie Wade
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Viver sem medo
A construção se dá a cada dia. Mas
o início de ano sempre nos traz aquela percepção de que é hora de pensar em coisas
novas: novos projetos, novas ideias, novas atitudes. Para mim, o
melhor é a possibilidade de novos planos. E fazer planos sem medo, sem medo de ousar, sem medo de errar, de dar o primeiro passo, de ir ou de ficar. Jogar o medo fora, não deixá-lo bater à sua porta. Esse é o
segredo. Por isso, busquei essa linda história, coletada por Rosane Pamplona e
publicada no livro Novas Histórias Antigas, da Editora Brinque-Book.
O homem que venceu o medo
João Oleiro era um homem muito medroso. Morria de medo de doenças, de
ladrões e até de fantasmas. Ele tinha muitas qualidades e gostava de trabalhar,
fazendo com perfeição belos objetos de barro, mas paralisava-o o medo de não
vender o que produzisse, o medo de ser roubado, o medo de ficar na miséria.De tanto medo, quase não saía de casa e evitava amigos. Seus negócios, que já não iam muito bem, piores ficaram quando um outro oleiro instalou-se na cidade e roubou-lhe a pequena freguesia que lhe restava. João começou a fazer dívidas e aos poucos os fantasmas que temia passaram a tomar corpo na forma de credores que batiam à sua porta e o ameaçavam de prisão.
Desesperado, não vendo saída para os seus problemas, João Oleiro resolveu matar-se... “Por que não?”, pensou ele. “A vida para mim não vale mais nada. Não tenho amigos, não tenho fregueses, não tenho dinheiro nem para comer. Está resolvido: vou me matar.”
Assim que decidiu isso, João
parou de se atormentar. Com a calma advinda do irremediável, ponderou que, já
que aquele seria seu último ato, deveria fazê-lo bem feito. Como não fosse nada
preguiçoso, resolveu primeiro fabricar um bom caixão para si mesmo. Lembrou-se
de ter visto um velho barco abandonado na beira do rio e, à noite, tomando
cuidado para não ser visto, foi buscá-lo. Em casa, cortou a madeira e passou o
dia todo lixando, martelando, pintando. Já era tarde quando o caixão ficou
pronto; muito bem acabado, parecia obra de um mestre.
Satisfeito consigo mesmo, João
resolveu comemorar. Esquecendo que já ninguém lhe vendia fiado, entrou na
taberna e pediu, todo cheio de si, uma caneca de cerveja. O taberneiro, diante
daquela pose confiante, não ousou recusar, porém ficou intrigado: um homem
naquela situação miserável rindo à toa? “Ali tem coisa”, pensou. Um dos
empregados da taberna lembrou-se de tê-lo visto em atitude suspeita lá na beira
do rio. – Talvez tenha encontrado algum tesouro – arriscou ele ao patrão.
João bebeu sua cerveja e voltou para casa. Muito contente, dormiu uma noite cheia de sonhos agradáveis. Na manhã seguinte, acordou sentindo-se muito bem. Abriu as janelas de sua casa, deixou o sol entrar e decidiu que poderia conceder-se três dias de prazo antes de matar-se, pois queria aproveitar aquela sensação de bem-estar. E como o seu coração estivesse leve, pegou um pouco de barro e pôs-se a modelar tudo o que lhe vinha à imaginação, sem medo de censuras.
Trabalhou com gosto e no fim do dia admirou com orgulho a sua produção: vasos e potes lindos, originais, verdadeiras obras-primas.
Satisfeito, novamente João foi à cidade comemorar, mal cabendo em si de felicidade. Seus amigos, estranhando aquela atitude, resolveram, no dia seguinte, dar uma espiada em sua casa. E lá dentro viram João, que trabalhava assobiando, rodeado de belíssimas peças de barro. Um dos amigos resolveu entrar e oferecer um bom dinheiro por um dos vasos. Outros logo o imitaram, e assim ele foi vendendo tudo o que produzia. No fim daqueles três dias, João resolveu se permitir mais um prazo. “Afinal”, pensou, “sou eu quem vai morrer, posso marcar o dia que quiser. Além disso, estou cheio de encomendas e não quero decepcionar os amigos. Mais uma semana seria bom”, determinou e continuou trabalhando feliz, criando arrojadas peças . Não demorou que seus objetos de barro ganhassem fama. O outro oleiro, seu concorrente, não conseguiu segurar a freguesia: todos só falavam nos inigualáveis vasos de João.
João bebeu sua cerveja e voltou para casa. Muito contente, dormiu uma noite cheia de sonhos agradáveis. Na manhã seguinte, acordou sentindo-se muito bem. Abriu as janelas de sua casa, deixou o sol entrar e decidiu que poderia conceder-se três dias de prazo antes de matar-se, pois queria aproveitar aquela sensação de bem-estar. E como o seu coração estivesse leve, pegou um pouco de barro e pôs-se a modelar tudo o que lhe vinha à imaginação, sem medo de censuras.
Trabalhou com gosto e no fim do dia admirou com orgulho a sua produção: vasos e potes lindos, originais, verdadeiras obras-primas.
Satisfeito, novamente João foi à cidade comemorar, mal cabendo em si de felicidade. Seus amigos, estranhando aquela atitude, resolveram, no dia seguinte, dar uma espiada em sua casa. E lá dentro viram João, que trabalhava assobiando, rodeado de belíssimas peças de barro. Um dos amigos resolveu entrar e oferecer um bom dinheiro por um dos vasos. Outros logo o imitaram, e assim ele foi vendendo tudo o que produzia. No fim daqueles três dias, João resolveu se permitir mais um prazo. “Afinal”, pensou, “sou eu quem vai morrer, posso marcar o dia que quiser. Além disso, estou cheio de encomendas e não quero decepcionar os amigos. Mais uma semana seria bom”, determinou e continuou trabalhando feliz, criando arrojadas peças . Não demorou que seus objetos de barro ganhassem fama. O outro oleiro, seu concorrente, não conseguiu segurar a freguesia: todos só falavam nos inigualáveis vasos de João.
De bem com a vida, é claro que João não pensou mais em morrer. Adiou
indefinidamente aquela ideia e tratou de aproveitar sua sorte. Foi ficando
rico, pagou suas dívidas, casou-se com uma boa moça e construiu para eles uma
bela casa. No fundo da casa, num quartinho fechado a chave, guardou o caixão
que fabricara naquele dia de desespero. A todos dizia que ali estava encerrado
o segredo de sua prosperidade.
Só muitos anos mais tarde, depois de uma longa vida venturosa, morreu João Oleiro. Abrindo o quarto secreto, seus netos descobriram que o único segredo da felicidade daquele homem foi ter sabido um dia enterrar o seu medo.
Só muitos anos mais tarde, depois de uma longa vida venturosa, morreu João Oleiro. Abrindo o quarto secreto, seus netos descobriram que o único segredo da felicidade daquele homem foi ter sabido um dia enterrar o seu medo.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
E salve as diferenças!
Respeito é bom e todos gostam. Mas é tarefa um tanto difícil para alguns. Alguns, digo, muitos, já que os casos e índices de intolerância em todo o mundo são assustadores, para dizer o mínimo. Intolerância pela opção sexual, religiosa, política, etc, etc, etc. Há ainda os que tentam convencer os "intolerados" a dançar conforme o recomendável. E aí a intolerância é pior ainda, porque é velada. Penso que cabe aos que não dançam conforme a música defenderem suas ideias, para não sucumbir. Por isso adoro uma frase de Ruth Rocha, que diz "Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém. pois quem não agrada a si mesmo, não pode agradar ninguém". Frase que encerra a singela e fantástica história de hoje:- Bom dia, sol, bom dia, flores, bom dia, todas as cores!
Lavou o rosto numa folha cheia de orvalho, mudou sua cor para a cor-de-rosa, que ele achava a mais bonita de todas, e saiu para o Sol, contente da vida.
Meu amigo Camaleão estava feliz porque tinha chegado a primavera.
E o sol, finalmente, depois de um inverno longo e frio, brilhava, alegre, no céu. - Eu hoje estou de bem com a vida ele disse. - quero ser bonzinho pra todo mundo...
Logo que saiu de casa, o Camaleão encontrou o professor pernilongo.
O professor pernilongo toca violino na orquestra do Teatro Florestal.
- Bom dia, professor! Como vai o senhor?
- Bom dia, Camaleão! Mas o que é isso, meu irmão? Por que é que mudou de cor? Essa cor não lhe cai bem...Olhe para o azul do céu. Por que não fica azul também?
O Camaleão, amável como ele era, resolveu ficar azul como o céu da primavera...
Até que numa clareira o Camaleão encontrou o sabiá-laranjeira:
- Meu amigo Camaleão, m ito bom dia e você! Mas que cor é essa agora?
O amigo está azul por quê?
E o sabiá explicou que a cor mais linda do mundo era a cor alaranjada,
Cor de laranja, dourada.
Nosso amigo, bem depressa, resolveu mudar de cor.
Ficou logo alaranjado, louro, laranja, dourado.
E cantando, alegremente, lá se foi, ainda contente...
Na pracinha da floresta, saindo da capelinha, vinha o senhor louva-a-deus, mais a família inteirinha.
Ele é um senhor muito sério, que não gosta de gracinha.
- bom dia, Camaleão! Que cor mais escandalosa!
Parece até fantasia pra baile de carnaval...
Você devia arranjar uma cor mais natural...
Veja o verde da folhagem... Veja o verde da campina... Você devia fazer
o que a natureza ensina.
É claro que o nosso amigo resolveu mudar de cor.
Ficou logo bem verdinho e foi pelo seu caminho...
Vocês agora já sabem como era o Camaleão.
Bastava que alguém falasse, mudava de opinião.
Ficava roxo, amarelo, ficava cor-de-pavão.
Ficava de toda cor. Não sabia dizer NÃO.
Por isso, naquele dia, cada vez que
Se encontrava com algum de seus amigos,
E que o amigo estranhava a cor com que ele estava...
Adivinha o que fazia o nosso Camaleão.
Pois ele logo mudava, mudava para outro tom...
Mudou de rosa para azul.
De azul para alaranjado.
De laranja para verde.
De verde para encarnado.
Mudou de preto para branco.
De branco virou roxinho.
De roxo para amarelo.
E até para cor de vinho...
Quando o sol começou a se pôr no horizonte, Camaleão resolveu voltar para casa. Estava cansado do longo passeio eE mais cansado ainda de tanto
mudar de cor. Entrou na sua casinha. Deitou para descansar.
E lá ficou a pensar: - Por mais que a gente se esforce, não pode agradar a todos. Alguns gostam de farofa. Outros preferem farelo...
Uns querem comer maçã. Outros preferem marmelo...
Tem quem goste de sapato. Tem quem goste de chinelo...
E se não fossem os gostos, que seria do amarelo?
Por isso, no outro dia, Camaleão levantou-se bem cedinho.
- Bom dia, sol, bom dia, flores, Bom dia, todas as cores!
Lavou o rosto numa folha cheia de orvalho, mudou sua cor para a cor-de-rosa, que ele achava a mais bonita de todas, e saiu para o sol, contente da vida. Logo que saiu, Camaleão encontrou o sapo cururu, que é cantor de sucesso na Rádio Jovem Floresta.
- Bom dia, meu caro sapo! Que dia mais lindo, não?
- Muito bom dia, amigo Camaleão!
Mais que cor mais engraçada, antiga, tão desbotada...
Por que é que você não usa uma cor mais avançada?
O Camaleão sorriu e disse para o seu amigo:
- Eu uso as cores que eu gosto, e com isso faço bem.
Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém.
Quem não agrada a si mesmo, não pode agradar ninguém...
E assim aconteceu o que acabei de contar.
Se gostaram, muito bem!
Se não gostaram, AZAR!
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
O amor não escraviza
O
amor, seja qual for, não pode ser cruel, não pode aprisionar, se apossar e,
muito menos, maltratar, Por isso, achei maravilhoso o livro Os beijinhos de
Ceci, do talentosíssimo escritor
francês Thierry Lenain, que já nos deu outra lindeza com a obra Ceci não tem
pipi. O livro é publicado pela Cia. das Letrinhas e tem ilustrações lindas de
Delphine Durand.
Os beijinhos de Ceci
Segunda de manhã, no recreio, Ceci diz a
Max: - sente aqui. Aqui, ou seja: nos degraus da escada do banheiro.
Max pergunta: - Por que você quer que eu sente aí, nos degraus da escada do
banheiro? Ceci responde: - É que assim, se eu ficar com vontade de lhe dar um
beijo, já sei onde você está.
Max
gosta muito dos beijos da Ceci. Não quer perder nenhum! Assim, ele acha que sua
namorada teve uma boa ideia e se senta num degrau da escada do banheiro. Depois
espera. Espera até tocar o sinal do fim do recreio. Toca o sinal do fim do
recreio, anunciando o fim do recreio e Max não ganhou nenhum beijo. Mesmo
assim, ele vai faer fila com as outras crianças. A fila do fim do recreio é
obrigatória.
Na
fila, Max pergunta a Ceci: - E o meu beijo? Ceci responde: - Que tem o seu
beijo? Max diz: - Você prometeu que se eu ficasse sentado na escada, ganhava um
beijo. Ceci ergue os ombros: - Nada disso! Leia de novo o começo da história.
Você vai ver que eu não prometi coisa nenhuma... A professora interrompe a
conversa: - Silêncio na fila! Max e Ceci se calam na mesma hora. O silêncio na
fila é obrigatório.
Terça de manhã, no
recreio,
Ceci diz de novo a Max: - Sente aqui. Aqui
continua sendo os degraus da escada do banheiro. Max pergunta: - Por que você
quer que eu sente outra vez aí? Ceci responde de novo: - É que assim, se eu
ficar com vontade de lhe dar um beijo, já sei onde você está. Max fica
chateado: - E se você não vier? Ceci responde: E se hoje eu vier? Depois de
fazer essa pergunta, Ceci se vira e vai embora.
Max
não sabe mais o que fazer. Se ficar sentado na escada, talvez ganhe um beijo.
Se não ficar sentado na escada, talvez deixe de ganhar um beijo, talvez não
deixe. O que fazer? Os problemas desse tipo são muito complicados. Precisa de
tempo para pensar. Precisa tanto tempo que Max não vê o tempo passar e, de
repente, o sinal do fim do recreio toca e é o fim do recreio. Max não ganhou
nenhum beijo e vai para o fim da fila. Percebe muito bem que as amigas da Ceci
olham para ele e dão risada...
Quinta de manhã, no
recreio,
Ceci começa a dizer de novo a Max: - Sente aí... Mas Max interrompe Ceci: -
Você acha que eu sou bobo ou... Mas Ceci interrompe Max: - Não se preocupe!
Hoje é diferente de segunda e terça. Hoje, COM CERTEZA, vou ficar com vontade
de lhe dar um beijo. Max desconfia: -
Então por que não me dá o beijo agora? – Porque é só MAIS TARDE que eu vou
ficar com vontade! Max continua desconfiado: - Tem certeza? Ceci responde:
CERTEZA CERTÍSSIMA! - Então está bem –
concorda Max. – Eu espero. Prometida a promessa, Ceci vai ao encontro das
amigas, que continuam dando risada quando olham para Max. Ele faz de conta que
não vê. Ceci lhe prometeu um beijo e um beijo de Ceci bem que vale um pouco de
gozação.
De
repente, alguém se aproxima. Não alguém que vai dar um beijo em Max, já que
esse alguém é a professora. Ela pergunta a Max: - Me diga, Max, por que você
passa os recreios sentado nessa escada? No começo, Max não quer contar a
verdade à professora. Ele diz: - Bom... pode ser que me dê vontade de fazer
xixi. Assim já estou pertinho do banheiro. A professora franze as sobrancelhas:
- Será que por acaso você não está zombando de mim, Max? Não se esqueça do
regulamento: os alunos estão proibidos de zombar da professora! Max não está
com a menor vontade de levar advertência. Então ele conta a verdade (mas sem
dizer o nome da namorada, porque isso é um segredo sagrado).
Quando
Max acaba de falar, a professora levanta os olhos e os braços para o céu e
exclama: - Meu pequeno Max, os
passarinhos não foram feitos para viver em gaiola! A cabra não foi feita para
viver amarrada a um toco! O peixinho não foi feito para vier num aquário! Pois
bem, é a mesma coisa com o apaixonado. Ele não foi feito para esperar um beijo
sentado nos degraus da escada do banheiro! Então... Upa, levante!
Max,
obediente, se levanta. Nesse exato momento, cjega Ceci. Será que ela quer lhe
dar um beijo? Com a professora parada ao lado é que não dá. De todo jeito, não
dá mais tempo, o sinal do fim do recreio toca.
Sexta
de manhã, no recreio, Ceci se aproxima de Max. É um dia parecido com os outros.
Só que entre ontem e hoje houve a noite de quinta para sexta. E na noite de
quinta para sexta Max teve pesadelos. Pesadelos em que se viu com uma cabeça de
Max sobre um corpo de pássaro, e depois de cabra, e depois de peixe. Ele era
obrigado a ir à escola daquele jeito e, quando ele passava, todo mundo rolava
de rir.
Então,
naquela manhã, antes que Ceci abrisse a boca, Max declara: - Chega, Ceci! O
passarinho não foi feito para viver num aquário! A cabra não foi feita para
viver na gaiola! O peixinho não foi feito para viver amarrado a um toco! E um
Max não foi feito para esperar pelos beijos da Ceci, sentado nos degraus da
escada do banheiro! Se você uer me beijar, é só ir até o lugar onde eu estiver!
Cabeça erguida e queixo em riste, Max dá as costas a Ceci e se afasta. Ceci
vai atrás e alcança Max. Ela passa um dos braços por cima dos ombros dele e lhe
dá um beijo na bochecha dizendo: - Na verdade, Max, prefiro você deste jeito!
terça-feira, 5 de novembro de 2013
O casulo e a borboleta
Esperança é a chave e a morte não deve nos assustar. Esse é o tom de "O casulo e a borboleta", uma das produções mais singelas e inteligentes que assisti ultimamente. Lindo, claro e profundo. Quem nos dera toda mensagem sobre esse tema fosse assim... Assistam e divulguem esse belíssimo trabalho do Projeto De Criança para Criança.
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