domingo, 6 de maio de 2012

Sábado conto histórias na PanaPaná

Pessoal, no próximo sábado estarei na Livraria PanaPaná, a convite de minha querida amiga Celina, para contar histórias, conversar, cantar e ser feliz. E estarei muito mais feliz se puder ver meus amigos lá. Por isso, estão todos convidados !

Ubuntu


Uma Bela lição
A jornalista e filósofa Lia Diskin, em um Festival Mundial da Paz, presenteou a todos com um caso de uma tribo da África, chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta para casa. Como tinha tempo de sobra, propôs uma brincadeira para as crianças.
Comprou então uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós!”

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Desfazendo nós!

Fui convidada para contar histórias no Salão Internacional do Livro de Suzano, pelo Instituto Patrícia Galvão, uma organização social que atua no campo do direito à comunicação e dos direitos das mulheres do País, buscando qualificar os debates sobre políticas públicas voltadas à promoção da igualdade e equidade de gênero. Para contar histórias no Espaço Lilás, promovido pelo Instituto, montei um repertório intitulado Diferenças, Cores e Amores. 
E a história NÓS, de Eva Furnari, encaixou-se de uma forma maravilhosa na emoção que me propus a passar.


NÓS 
No tempo em que as pessoas nasciam em repolhos e as bicicletas voavam, havia uma cidade chamada Pamonhas. Nesta cidade, havia uma casa amarela, onde morava uma menina chamada Mel. Era uma garota solitária e muito diferente: é que à sua volta viviam muitas borboletas, que a acompanhavam onde ela ia. Justamente por conta disso, as pessoas da cidade tratavam Mel muito mal. Diziam que ela tinha nascido de um repolho repolhudo, de um repolho borboletado, de um repolho mofado. Mel sentia-se muito triste toda vez que falavam isso e corria para casa, a chorar. Isso acontecia todos os dias, era Mel sair na rua, com borboletas em sua volta, que lá vinha "repolhuda, borboletuda...". Mel não aguentava, dizia que não ia chorar, mas sentia-se tão mal, que corria chorando, escondendo-se em casa. 
Um belo dia, Mel resolveu mudar de tática e, ao invés de sair correndo, chorando, ficou firme. E voltou para casa como se não estivesse abalada com as risadas às suas costas. Não chorou, mas sentiu seu dedinho do pé repuxar, repuxar muito. Ao chegar em casa, tirou os sapatos e descobriu que seu dedinho tinha dado um.. NÒ. Sim, um nó, e não houve jeito, creme ou massagem que desfizesse aquele nó. O que aconteceu nos dias seguintes foi bem pior: cada vez que saía e, como sempre, ouvia "repolhuda, borboletuda...", corria para casa sem chorar. Mas ao chegar verificava que mais um nó estava feito em seu corpo. Com isso, ela já estava com seis nós, dois nos dedos dos pés, um no dedo da mão, um em cada perna e um no pescoço. Esse era o pior de todos, pois parecia um nó na garganta, destes que nem deixa a gente respirar.
O tempo foi passando e a gozação continuando. Até que um dia, quando chegou em casa, Mel se assustou com um nó na ponta do nariz! Ah não, aquilo já era demais. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou, não dava mais para aguentar. E Mel decidir deixar a cidade de Pamonhas.  "Adeus, Pamonhas", disse ela, baixinho. E, disfarçada de geladeira, fugiu discretamente. 
Quando o Sol estava alto e Mel longe de casa, ela decidiu largar a geladeira em um ferro velho e continuar seu caminho. Chegou à noitinha ao topo de uma montanha. Tudo era tão lindo e em paz, que Mel sentiu-se feliz. O tempo passou. E Mel, na montanha, sozinha com suas borboletas e nós. Até que um dia uma vaca apareceu no topo da montanha. Mel tentou puxar assunto, mas a vaca não respondeu. Mel então pensou em lhe fazer um carinho. E deu um nozinho em seu rabo. A vaca ficou muito brava e avançou em Mel, que saiu correndo em disparada. Mel correndo e a vaca atrás, Mel correndo e a vaca atrás. Até que, para se livrar, Mel pulou no rio, nadou, nadou e nadou. Ao chegar à outra margem, viu que a vaca não conseguiu atravessar o rio. "ufa, disse ela, que bom que a vaca não sabe nadar". 
- "Que vaca?", alguém perguntou. Mel levou um baita susto, olhou e viu um menino ao seu lado. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou e Mel imaginou que ia começar tudo de novo "Repolhuda, borboletuda". Mel quis fugir e não teve dúvidas, pegou a bicicleta do menino e saiu voando. Mas um cisco entrou em seu olhou e ela caiu, bem em cima dele. Envergonhada, ficou no chão, com a cabeça baixa, tentado pedir desculpas. E o garoto, foi muito gentil "você se machucou? Está molhada, precisa secar". Mel ficou quieta. "Puxa, como você é bonita! E que lindas borboletas te acompanham, nunca vi nada tão bonito". Mel foi sentindo uma coisa esquisita na garganta, aquele nó do pescoço repuxando, uma coisa que foi crescendo, crescendo, até que um choro começou de mansinho, de mansinho, depois explodiu, num choro sentido, num choro convulsivo, um choro engasgado daquele de nó na garganta. Pudera, o menino tinha falado com ela como ninguém havia falado... Depois de tanto chorar, Mel tentou olhar para o menino, pedir desculpas, limpou o rosto, desceu a mão pro pescoço e... o nó tinha sumido!  Ele sorriu. Mel compreendeu naquele momento que podia desatar seus nós. 
E foi assim, desse jeito, que aliviou seu coração. Chorou mais um pouco, desta vez de emoção, não tristeza. Deixou que as lágrimas levassem o cisco embora. Abriu os olhos, o dia parecia mais claro. 
"Eu me chamo Kiko, e você?" Mel não respondeu. Estava ocupada reparando em um pequeno detalhe: o menino também tinha um nó, um nozinho no dedo fura-bolo! O garoto percebeu e disse baixinho "eu sei um jeito de tirar nó de nariz..." E a chamou para conhecer a sua cidade. 
E chegaram na cidade de Merengue, que ficava do lado oposto da cidade de Pamonhas. Lá, Mel viu com surpresa, que tinha gente de todo tipo. E todos os tipos de nós também. Parecia gente nascida de todos os tipos de repolhos. E todos se respeitavam! 
Mel decidiu viver ali. E foi feliz. Um dia, Kiko ensinou a Mel a desatar o nó do nariz. E Mel, agradecida, dividiu com ele suas borboletas!



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Páscoa

Estou atrasada com o blog, aliás estou atrasada com um monte de coisas. Como o coelho da Alice, corro, coro, estou atrasada. Amigos me pedem para parar, puxar o freio de mão, ter calma. Sim, tudo vai dar certo. só preciso descansar um pouco. Agora é o momento. E aí, recebo uma mensagem maravilhosa de Páscoa, de minha amiga, mentora e querida Eli. Justo quando estava pensando sobre uma história para contar aqui sobre o significado da data. Não há como pensar em mais nada, a não ser neste texto lindo, inteligente, irreverente de Eli. Amiga, agradeço muito por isso e tomo a liberdade de publicá-lo, inclusive com a bela imagem com a qual nos presenteou. Boa Páscoa a todos.
Chega a Páscoa

   Faço uma receita caprichada com o último pedaço de peixe seco que sobrou na minha despensa saqueada pelo inverno.
  Dou um monte de comidas coloridas para minha galinha e, na manhã de domingo, ela me bota um lindo ovo de presente. 
  Fico grávida de uma ninhada de ideias-coelhas, inquietas, quentinhas, fecundas. 
  Vou dançar numa floresta antiga, no meio da clareira banhada de luar. 
  Me recordo de quem se foi e dou graças porque, quando me recordo deles, eles também se lembram de mim.
  E nos encontramos para conversar, nesse lugar entre mundos.
  Dou graças por quem fica ao meu lado, para festejar comigo ainda mais esta vez. 
  Abro espaço para quem chega. Afinal vai saber se não é o próprio Messias!
  Saio do Egito um pouco chateada porque, afinal, adoro a corte fashion do faraó Ramsés e todos aqueles artistas com seus murais maravilhosos, mas...
  sempre haverá muros para pintar na Terra Prometida. E quem sabe eu não me torno um desses artistas, mesmo porque lá não tem tanta concorrência.
  A todos, uma Páscoa iluminada pelos símbolos da união dos opostos, tempo de vida-morte-renascimento, na melhor tradição judaico-cristã-pagã.
Eli

terça-feira, 13 de março de 2012

Depois de Galinda, chegou Mágica na Loja de Tintas

Não consegui alimentar meu blog até agora porque todas as vezes que entrava via a foto do Guile, olhando para mim. E aí desistia.  Mas a vida continua e agora tenho um bom motivo para colocar um outro assunto aqui. É o lançamento do meu segundo livro, o Mágica na Loja de Tintas, que será lançado no próximo dia 24. Espero todos as pessoas queridas lá, compartilhando este momento comigo. 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre cachorros e avós

Há pessoas que foram predestinadas a serem iluminadas. Isso mesmo, como se caminhassem e, à sua volta, uma aura muito especial, quase um cartaz ou outdoor, escrito “sou do bem”. Muitas pessoas são assim, e, acredito, mais que pessoas, animais são assim. Afinal, possuem a benesse de não trazer em seu coração a maldade humana, cada vez mais aparente em dias atuais.
Meu cachorro Guile era um desses predestinados. Carregava uma luz imensa em seu olhar, uma luz que – nunca duvidei – já o identificava como um cara que entrou em nossa casa para nos fazer felizes. Guilão chegou pequenino, salvo de uma cria destinada a morrer precocemente em uma favela, onde cada um tenta se virar como pode. Tinha muitos vermes, e cada vez que os colocava para fora, olhava para nós, intrigado, meio que querendo saber de onde tinha saído aquilo tudo. Depois cresceu saudável e tornou-se o mais elegante cachorro que já tivemos: dono de pelos pretos que nunca perderam o brilho e de uma altivez mantida por toda a sua vida.
     Foi dado de presente para a Mariana, pelo pai dela, Fernando. “Um cachorro carinhoso segura a ansiedade de uma adolescente danada”, disse ele.  Fernando estava certo, também nunca duvidei disso. Mariana iria fazer 11 anos, à beira da adolescência e de um ataque de nervos, como diria Almodóvar. Guile foi seu presente de aniversário - acho que o melhor de toda a sua vida.
Guile e Mariana fizeram uma boa dupla. Ela se deitava ao lado do cachorro no chão de ardósia verde que tínhamos na copa e passava horas olhando para ele, sem fazer mais nada. E ele ficava ali, retribuindo o olhar e se deixando acarinhar o tempo que ela quisesse. Amavam-se assim, no silêncio dos olhares e no frescor da ardósia verde, em longas tardes calorentas.
    Ele era lindo também em sua cumplicidade com Fernando, que caminhava silenciosamente para o quintal, e dava tapinhas em suas costas, dizendo baixinho “você é meu amigão, Guilão”. O Guile sorria e dava a cabecinha para o Fernando acariciar. Sim, era um grande amigão.
    Era também um cachorro alegre, que latia muito, adorava de ser escovado -  quando me via com a escova na mão sentava-se em seu degrau preferido da pequena escada do quintal e ficava me aguardando, sorrindo. Sorria muito, fazia pose para fotos e dava a pata para quem pedisse. Odiava arroz com cenoura, e quando esse era o cardápio do dia tinha a capacidade de separar pedacinho por pedacinho da cenoura e colocar no meio do quintal,  para que todos vissem o seu protesto.
    E aconteceram coisas engraçadas, como o dia em que, ao saírem para passear, a Mariana caiu em um monte de cocô. Guile, que não era o produtor daquele cocozal, fingiu que não a conhecia, olhando para o outro lado da calçada até que ela se levantasse e, claro, parasse de fazer com que ele passasse tanta vergonha.
    Havia também os domingos de churrasco em casa que ele adorava. Nunca soubemos se era por causa do cheiro das carnes na churrasqueira, mas desconfio que não só por isso. O fato é que, ao cair da noite, quando todos iam embora e nós, da casa, entrávamos cansados de tanta farra, Guilão saía à cata de bitucas de cigarro (quase sempre jogadas pelos convidados no quintal) e latinhas de cerveja esquecidas no chão. Brincávamos que Guile bebia e fumava muito em nossos churrascos.
    Houve um dia em que Guile foi a mais solidária criatura que já conheci, deixando claro o quanto realmente era especial. Foi quando a Julia, irmã de Mariana, terminou um namoro, desses de adolescência. E todos sabem que fim de namoro na adolescência significa a maior catástrofe do mundo, um sofrimento verdadeiramente atroz, maior do que ser acometido por todas as pragas do Egito. Júlia estava muito triste e eu, como mãe, achei que a melhor coisa seria lhe dar colo. Ela, já mais alta do que eu, sentou-se em meu colo e chorou em meu ombro. Guilão aproximou-se e me olhou com aquele olhar que só faltava escorrer mel. E eu expliquei para ele o quanto ela estava triste. Ele então colocou sua patinha no braço dela. E ali ficamos nós três por muito tempo, Júlia chorando, eu afagando, e o Guile, sem se mexer, mantendo sua patinha no braço dela, como bálsamo de sua dor.
   Guilão completaria 18 anos em maio. Em setembro passado, ele começou a tomar um remédio para fortalecer seu pequeno grande coração – depois de uma crise terrível. “O coração dele não está mais batendo, está apanhando”, brincou o veterinário, passando a receita. Em dezembro, fui com minha sogra, a vó Goia, em uma farmácia para comprar coisinhas. Lembrei-me do remédio do Guilão, que estava acabando. A balconista da farmácia me ofereceu três caixinhas em promoção. Não aceitei. E ela insistiu. A Vó Goia pediu que eu comprasse. E, muito baixinho, profetizei “não sei se ele vai durar o tempo para tomar as três caixas”. O nó fechou minha garganta e a Vó Goia, nossa fada meio bruxa, ela sim boa em profecias e percepções dessas que não temos como explicar, disse “leve sim, ele vai tomar”.    Comprei e fiquei feliz, porque as caixinhas pareciam durar para sempre, porque Guile queria durar para sempre. Mas tudo foi ficando complicado e triste. E Guilão não estava mais agüentando. Até que a última caixinha do remédio foi chegando ao fim. Maravilhosa Vó Goia, que nos deu três caixas e mais três meses de vida de nosso amigo. Maravilhoso Guile, que tentou nos fazer felizes por esses três últimos meses. O último comprimido para fazer com que seu enorme coração continuasse a bater foi dado no sábado à noite. Guilão se foi no domingo de manhã. Não compraremos outra caixa do remédio.
   Em compensação, tenho certeza que Guile e Fernando estão lá, um ao lado do outro. Fernando lhe dando tapinhas na costas e dizendo baixinho “seja bem vindo ao céu, meu amigão”. E o Guile lhe sorrindo e dando sua cabecinha para ser acariciada.

Fevereiro/2012