segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre cachorros e avós

Há pessoas que foram predestinadas a serem iluminadas. Isso mesmo, como se caminhassem e, à sua volta, uma aura muito especial, quase um cartaz ou outdoor, escrito “sou do bem”. Muitas pessoas são assim, e, acredito, mais que pessoas, animais são assim. Afinal, possuem a benesse de não trazer em seu coração a maldade humana, cada vez mais aparente em dias atuais.
Meu cachorro Guile era um desses predestinados. Carregava uma luz imensa em seu olhar, uma luz que – nunca duvidei – já o identificava como um cara que entrou em nossa casa para nos fazer felizes. Guilão chegou pequenino, salvo de uma cria destinada a morrer precocemente em uma favela, onde cada um tenta se virar como pode. Tinha muitos vermes, e cada vez que os colocava para fora, olhava para nós, intrigado, meio que querendo saber de onde tinha saído aquilo tudo. Depois cresceu saudável e tornou-se o mais elegante cachorro que já tivemos: dono de pelos pretos que nunca perderam o brilho e de uma altivez mantida por toda a sua vida.
     Foi dado de presente para a Mariana, pelo pai dela, Fernando. “Um cachorro carinhoso segura a ansiedade de uma adolescente danada”, disse ele.  Fernando estava certo, também nunca duvidei disso. Mariana iria fazer 11 anos, à beira da adolescência e de um ataque de nervos, como diria Almodóvar. Guile foi seu presente de aniversário - acho que o melhor de toda a sua vida.
Guile e Mariana fizeram uma boa dupla. Ela se deitava ao lado do cachorro no chão de ardósia verde que tínhamos na copa e passava horas olhando para ele, sem fazer mais nada. E ele ficava ali, retribuindo o olhar e se deixando acarinhar o tempo que ela quisesse. Amavam-se assim, no silêncio dos olhares e no frescor da ardósia verde, em longas tardes calorentas.
    Ele era lindo também em sua cumplicidade com Fernando, que caminhava silenciosamente para o quintal, e dava tapinhas em suas costas, dizendo baixinho “você é meu amigão, Guilão”. O Guile sorria e dava a cabecinha para o Fernando acariciar. Sim, era um grande amigão.
    Era também um cachorro alegre, que latia muito, adorava de ser escovado -  quando me via com a escova na mão sentava-se em seu degrau preferido da pequena escada do quintal e ficava me aguardando, sorrindo. Sorria muito, fazia pose para fotos e dava a pata para quem pedisse. Odiava arroz com cenoura, e quando esse era o cardápio do dia tinha a capacidade de separar pedacinho por pedacinho da cenoura e colocar no meio do quintal,  para que todos vissem o seu protesto.
    E aconteceram coisas engraçadas, como o dia em que, ao saírem para passear, a Mariana caiu em um monte de cocô. Guile, que não era o produtor daquele cocozal, fingiu que não a conhecia, olhando para o outro lado da calçada até que ela se levantasse e, claro, parasse de fazer com que ele passasse tanta vergonha.
    Havia também os domingos de churrasco em casa que ele adorava. Nunca soubemos se era por causa do cheiro das carnes na churrasqueira, mas desconfio que não só por isso. O fato é que, ao cair da noite, quando todos iam embora e nós, da casa, entrávamos cansados de tanta farra, Guilão saía à cata de bitucas de cigarro (quase sempre jogadas pelos convidados no quintal) e latinhas de cerveja esquecidas no chão. Brincávamos que Guile bebia e fumava muito em nossos churrascos.
    Houve um dia em que Guile foi a mais solidária criatura que já conheci, deixando claro o quanto realmente era especial. Foi quando a Julia, irmã de Mariana, terminou um namoro, desses de adolescência. E todos sabem que fim de namoro na adolescência significa a maior catástrofe do mundo, um sofrimento verdadeiramente atroz, maior do que ser acometido por todas as pragas do Egito. Júlia estava muito triste e eu, como mãe, achei que a melhor coisa seria lhe dar colo. Ela, já mais alta do que eu, sentou-se em meu colo e chorou em meu ombro. Guilão aproximou-se e me olhou com aquele olhar que só faltava escorrer mel. E eu expliquei para ele o quanto ela estava triste. Ele então colocou sua patinha no braço dela. E ali ficamos nós três por muito tempo, Júlia chorando, eu afagando, e o Guile, sem se mexer, mantendo sua patinha no braço dela, como bálsamo de sua dor.
   Guilão completaria 18 anos em maio. Em setembro passado, ele começou a tomar um remédio para fortalecer seu pequeno grande coração – depois de uma crise terrível. “O coração dele não está mais batendo, está apanhando”, brincou o veterinário, passando a receita. Em dezembro, fui com minha sogra, a vó Goia, em uma farmácia para comprar coisinhas. Lembrei-me do remédio do Guilão, que estava acabando. A balconista da farmácia me ofereceu três caixinhas em promoção. Não aceitei. E ela insistiu. A Vó Goia pediu que eu comprasse. E, muito baixinho, profetizei “não sei se ele vai durar o tempo para tomar as três caixas”. O nó fechou minha garganta e a Vó Goia, nossa fada meio bruxa, ela sim boa em profecias e percepções dessas que não temos como explicar, disse “leve sim, ele vai tomar”.    Comprei e fiquei feliz, porque as caixinhas pareciam durar para sempre, porque Guile queria durar para sempre. Mas tudo foi ficando complicado e triste. E Guilão não estava mais agüentando. Até que a última caixinha do remédio foi chegando ao fim. Maravilhosa Vó Goia, que nos deu três caixas e mais três meses de vida de nosso amigo. Maravilhoso Guile, que tentou nos fazer felizes por esses três últimos meses. O último comprimido para fazer com que seu enorme coração continuasse a bater foi dado no sábado à noite. Guilão se foi no domingo de manhã. Não compraremos outra caixa do remédio.
   Em compensação, tenho certeza que Guile e Fernando estão lá, um ao lado do outro. Fernando lhe dando tapinhas na costas e dizendo baixinho “seja bem vindo ao céu, meu amigão”. E o Guile lhe sorrindo e dando sua cabecinha para ser acariciada.

Fevereiro/2012

Um comentário:

Rosita Flores disse...

Queridíssima Vanessa,que linda declaração de amor e amizade. O Guile com certeza, está em paz! beijos