quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

E salve as diferenças!

Respeito é bom e todos gostam. Mas é tarefa um tanto difícil para alguns. Alguns, digo, muitos, já que os casos e índices de intolerância em todo o mundo são assustadores, para dizer o mínimo. Intolerância pela opção sexual, religiosa, política, etc, etc, etc. Há ainda os que tentam convencer os "intolerados" a dançar conforme o recomendável. E aí a intolerância é pior ainda, porque é velada. Penso que cabe aos que não dançam conforme a música defenderem suas ideias, para não sucumbir. Por isso adoro uma frase de Ruth Rocha, que diz "Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém. pois quem não agrada a si mesmo, não pode agradar ninguém". Frase que encerra a singela e fantástica história de hoje:

Bom Dia, Todas as Cores!
Meu amigo Camaleão acordou de bom humor.
- Bom dia, sol, bom dia, flores, bom dia, todas as cores!
Lavou o rosto numa folha cheia de orvalho, mudou sua cor para a cor-de-rosa, que ele achava a mais bonita de todas, e saiu para o Sol, contente da vida.
Meu amigo Camaleão estava feliz porque tinha chegado a primavera.
E o sol, finalmente, depois de um inverno longo e frio, brilhava, alegre, no céu. - Eu hoje estou de bem com a vida ele disse. - quero ser bonzinho pra todo mundo...
Logo que saiu de casa, o Camaleão encontrou o professor pernilongo.
O professor pernilongo toca violino na orquestra do Teatro Florestal.
- Bom dia, professor! Como vai o senhor?
- Bom dia, Camaleão! Mas o que é isso, meu irmão? Por que é que mudou de cor? Essa cor não lhe cai bem...Olhe para o azul do céu. Por que não fica azul também?
O Camaleão, amável como ele era, resolveu ficar azul como o céu da primavera...
Até que numa clareira o Camaleão encontrou o sabiá-laranjeira:
- Meu amigo Camaleão, m ito bom dia e você! Mas que cor é essa agora?
O amigo está azul por quê?
E o sabiá explicou que a cor mais linda do mundo era a cor alaranjada,
Cor de laranja, dourada.
Nosso amigo, bem depressa, resolveu mudar de cor.
Ficou logo alaranjado, louro, laranja, dourado.
E cantando, alegremente, lá se foi, ainda contente...
Na pracinha da floresta, saindo da capelinha, vinha o senhor louva-a-deus, mais a família inteirinha.
Ele é um senhor muito sério, que não gosta de gracinha.
- bom dia, Camaleão! Que cor mais escandalosa!
Parece até fantasia pra baile de carnaval...
Você devia arranjar uma cor mais natural...
Veja o verde da folhagem... Veja o verde da campina... Você devia fazer
o que a natureza ensina.
É claro que o nosso amigo resolveu mudar de cor.
Ficou logo bem verdinho e foi pelo seu caminho...
Vocês agora já sabem como era o Camaleão.
Bastava que alguém falasse, mudava de opinião.
Ficava roxo, amarelo, ficava cor-de-pavão.
Ficava de toda cor. Não sabia dizer NÃO.
Por isso, naquele dia, cada vez que 
Se encontrava com algum de seus amigos,
E que o amigo estranhava a cor com que ele estava...
Adivinha o que fazia o nosso Camaleão.
Pois ele logo mudava, mudava para outro tom...
Mudou de rosa para azul.
De azul para alaranjado.
De laranja para verde.
De verde para encarnado.
Mudou de preto para branco.
De branco virou roxinho.
De roxo para amarelo.
E até para cor de vinho...
Quando o sol começou a se pôr no horizonte, Camaleão resolveu voltar para casa. Estava cansado do longo passeio eE mais cansado ainda de tanto
mudar de cor. Entrou na sua casinha. Deitou para descansar.
E lá ficou a pensar: - Por mais que a gente se esforce, não pode agradar a todos. Alguns gostam de farofa. Outros preferem farelo...
Uns querem comer maçã. Outros preferem marmelo...
Tem quem goste de sapato. Tem quem goste de chinelo...
E se não fossem os gostos, que seria do amarelo?
Por isso, no outro dia, Camaleão levantou-se bem cedinho.
- Bom dia, sol, bom dia, flores, Bom dia, todas as cores!
Lavou o rosto numa folha cheia de orvalho, mudou sua cor para a cor-de-rosa, que ele achava a mais bonita de todas, e saiu para o sol, contente da vida. Logo que saiu, Camaleão encontrou o sapo cururu, que é cantor de sucesso na Rádio Jovem Floresta.
- Bom dia, meu caro sapo! Que dia mais lindo, não?
- Muito bom dia, amigo Camaleão!
Mais que cor mais engraçada, antiga, tão desbotada...
Por que é que você não usa uma cor mais avançada?
O Camaleão sorriu e disse para o seu amigo:
- Eu uso as cores que eu gosto, e com isso faço bem.
Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém.
Quem não agrada a si mesmo, não pode agradar ninguém...
E assim aconteceu o  que acabei de contar.
Se gostaram, muito bem!
Se não gostaram, AZAR!



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O amor não escraviza

O amor, seja qual for, não pode ser cruel, não pode aprisionar, se apossar e, muito menos, maltratar, Por isso, achei maravilhoso o livro Os beijinhos de Ceci, do talentosíssimo escritor francês Thierry Lenain, que já nos deu outra lindeza com a obra Ceci não tem pipi. O livro é publicado pela Cia. das Letrinhas e tem ilustrações lindas de Delphine Durand.

Os beijinhos de Ceci
Segunda de manhã, no recreio, Ceci diz a Max: - sente aqui. Aqui,  ou seja: nos degraus da escada do banheiro. Max pergunta: - Por que você quer que eu sente aí, nos degraus da escada do banheiro? Ceci responde: - É que assim, se eu ficar com vontade de lhe dar um beijo, já sei onde você está.
Max gosta muito dos beijos da Ceci. Não quer perder nenhum! Assim, ele acha que sua namorada teve uma boa ideia e se senta num degrau da escada do banheiro. Depois espera. Espera até tocar o sinal do fim do recreio. Toca o sinal do fim do recreio, anunciando o fim do recreio e Max não ganhou nenhum beijo. Mesmo assim, ele vai faer fila com as outras crianças. A fila do fim do recreio é obrigatória.
Na fila, Max pergunta a Ceci: - E o meu beijo? Ceci responde: - Que tem o seu beijo? Max diz: - Você prometeu que se eu ficasse sentado na escada, ganhava um beijo. Ceci ergue os ombros: - Nada disso! Leia de novo o começo da história. Você vai ver que eu não prometi coisa nenhuma... A professora interrompe a conversa: - Silêncio na fila! Max e Ceci se calam na mesma hora. O silêncio na fila é obrigatório.
Terça de manhã, no recreio, Ceci diz de novo a Max: - Sente aqui. Aqui continua sendo os degraus da escada do banheiro. Max pergunta: - Por que você quer que eu sente outra vez aí? Ceci responde de novo: - É que assim, se eu ficar com vontade de lhe dar um beijo, já sei onde você está. Max fica chateado: - E se você não vier? Ceci responde: E se hoje eu vier? Depois de fazer essa pergunta, Ceci se vira e vai embora.
Max não sabe mais o que fazer. Se ficar sentado na escada, talvez ganhe um beijo. Se não ficar sentado na escada, talvez deixe de ganhar um beijo, talvez não deixe. O que fazer? Os problemas desse tipo são muito complicados. Precisa de tempo para pensar. Precisa tanto tempo que Max não vê o tempo passar e, de repente, o sinal do fim do recreio toca e é o fim do recreio. Max não ganhou nenhum beijo e vai para o fim da fila. Percebe muito bem que as amigas da Ceci olham para ele e dão risada...
Quinta de manhã, no recreio, Ceci começa a dizer de novo a Max: - Sente aí... Mas Max interrompe Ceci: - Você acha que eu sou bobo ou... Mas Ceci interrompe Max: - Não se preocupe! Hoje é diferente de segunda e terça. Hoje, COM CERTEZA, vou ficar com vontade de lhe dar um beijo. Max desconfia:  - Então por que não me dá o beijo agora? – Porque é só MAIS TARDE que eu vou ficar com vontade! Max continua desconfiado: - Tem certeza? Ceci responde: CERTEZA CERTÍSSIMA!  - Então está bem – concorda Max. – Eu espero. Prometida a promessa, Ceci vai ao encontro das amigas, que continuam dando risada quando olham para Max. Ele faz de conta que não vê. Ceci lhe prometeu um beijo e um beijo de Ceci bem que vale um pouco de gozação.
De repente, alguém se aproxima. Não alguém que vai dar um beijo em Max, já que esse alguém é a professora. Ela pergunta a Max: - Me diga, Max, por que você passa os recreios sentado nessa escada? No começo, Max não quer contar a verdade à professora. Ele diz: - Bom... pode ser que me dê vontade de fazer xixi. Assim já estou pertinho do banheiro. A professora franze as sobrancelhas: - Será que por acaso você não está zombando de mim, Max? Não se esqueça do regulamento: os alunos estão proibidos de zombar da professora! Max não está com a menor vontade de levar advertência. Então ele conta a verdade (mas sem dizer o nome da namorada, porque isso é um segredo sagrado).
Quando Max acaba de falar, a professora levanta os olhos e os braços para o céu e exclama: - Meu pequeno Max, os passarinhos não foram feitos para viver em gaiola! A cabra não foi feita para viver amarrada a um toco! O peixinho não foi feito para vier num aquário! Pois bem, é a mesma coisa com o apaixonado. Ele não foi feito para esperar um beijo sentado nos degraus da escada do banheiro! Então... Upa, levante!
Max, obediente, se levanta. Nesse exato momento, cjega Ceci. Será que ela quer lhe dar um beijo? Com a professora parada ao lado é que não dá. De todo jeito, não dá mais tempo, o sinal do fim do recreio toca.
Sexta de manhã, no recreio, Ceci se aproxima de Max. É um dia parecido com os outros. Só que entre ontem e hoje houve a noite de quinta para sexta. E na noite de quinta para sexta Max teve pesadelos. Pesadelos em que se viu com uma cabeça de Max sobre um corpo de pássaro, e depois de cabra, e depois de peixe. Ele era obrigado a ir à escola daquele jeito e, quando ele passava, todo mundo rolava de rir.
Então, naquela manhã, antes que Ceci abrisse a boca, Max declara: - Chega, Ceci! O passarinho não foi feito para viver num aquário! A cabra não foi feita para viver na gaiola! O peixinho não foi feito para viver amarrado a um toco! E um Max não foi feito para esperar pelos beijos da Ceci, sentado nos degraus da escada do banheiro! Se você uer me beijar, é só ir até o lugar onde eu estiver! Cabeça erguida e queixo em riste, Max dá as costas a Ceci e se afasta. Ceci vai atrás e alcança Max. Ela passa um dos braços por cima dos ombros dele e lhe dá um beijo na bochecha dizendo: - Na verdade, Max, prefiro você deste jeito!

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O casulo e a borboleta

Esperança é a chave e a morte não deve nos assustar. Esse é o tom de "O casulo e a borboleta", uma das produções mais singelas e inteligentes que assisti ultimamente. Lindo, claro e profundo. Quem nos dera toda mensagem sobre esse tema fosse assim... Assistam e divulguem esse belíssimo trabalho do Projeto De Criança para Criança.



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Dia Internacional do idoso

Neste primeiro dia de outubro comemorou-se o Dia Internacional do Idoso. E quando pensamos no idoso neste País, apesar de grandes e importantes iniciativas por parte de diversas instituições, a primeira coisa que nos vem à cabeça são o abandono, a falta de políticas públicas para essa faixa etária, principalmente na área da saúde, a falta de perspectivas, etc e etc. Mas para muitos e, acredito, principalmente para um contador de histórias, além desse cenário também vem a força da oralidade, a magia da ancestralidade, a imagem daquele que já viveu muito e nos traz maravilhosas histórias para contar. Avôs e avós, velhos narradores de outros tempos tornam-se entidades detentoras do conhecimento ancestral tão necessário à nossa doente sociedade contemporânea. Bom, poderia ficar horas aqui escrevendo sobre como vejo a importância do resgate dessa relação com os idosos, mas prefiro me expressar por meio de histórias. Então, aqui vai uma já conhecida e muito bela história.

GUILHERME AUGUSTO ARAÚJO FERNANDES

Era uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era tão velho assim.
Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
Ele gostava da senhora Silvano, que tocava piano.
Ele ouvia as histórias arrepiantes, que lhe contava o Sr. Cervantes.
Ele brincava com o Sr. Valdemar, que adorava remar.
Ajudava a senhora Mandala, que andava com uma bengala.
E admirava o Sr. Possante, que tinha voz de gigante.
Mas a pessoa que ele mais gostava era a senhora Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela também tinha quatro nomes, como ele. Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.
Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
- Coitada da velhinha - disse sua mãe.
- Por que ela é coitada? - perguntou Guilherme Augusto.
- Porque ela perdeu a memória - respondeu seu pai.
- Também, não é para menos – disse a mãe. - ela já tem noventa e seis anos.
- O que é memória? - perguntou Guilherme Augusto.
Ele vivia fazendo perguntas.
- É algo de que você se lembre - respondeu o pai.
Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então, ele procurou a Sra. Silvano que tocava piano.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo quente, meu filho, algo quente.
Ele procurou o Sr. Cervantes, que lhe contava histórias arrepiantes.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo.
Ele procurou o Sr. Valdemar, que adorava remar.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar.
Ele procurou a senhora Mandala, que andava com uma bengala.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir.
Ele procurou o Sr. Possante, que tinha voz de gigante.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro.
Então Guilherme Augusto voltou para casa, para procurar memórias para Dona Antônia, já que ela havia perdido as suas.
Ele procurou uma antiga caixa de sapatos cheia de conchas, guardadas há muito tempo, e colocou-as com cuidado numa cesta.
Ele achou a marionete, que sempre fizera todo mundo rir, e colocou-a na cesta também.
Ele lembrou-se, com tristeza, da medalha que seu avô lhe tinha dado e colocou-a delicadamente ao lado das conchas.
Depois achou sua bola de futebol, que para ele valia ouro; por fim, entrou no galinheiro e pegou um ovo fresquinho, ainda quente, debaixo da galinha.
Aí, Guilherme Augusto foi visitar Dona Antônia e deu a ela, uma por uma, cada coisa de sua cesta.
"Que criança adorável que me traz essas coisas maravilhosas", pensou Dona Antônia.
E então ela começou a se lembrar.
Ela segurou o ovo ainda quente e contou a Guilherme Augusto sobre um ovinho azul, todo pintado, que havia encontrado uma vez, dentro de um ninho, no jardim da casa de sua tia.
Ela encostou uma das conchas em seu ouvido e lembrou da vez que tinha ido à praia de bonde, há muito tempo, e como sentira calor com suas botas de amarrar.
Ela pegou a medalha e lembrou, com tristeza, de seu irmão mais velho, que havia ido para guerra e que nunca voltou.
Ela sorriu para a marionete e lembrou da vez em que mostrara uma para sua irmãzinha, que rira às gargalhadas, com a boca cheia de mingau.
Ela jogou a bola de futebol para Guilherme Augusto e lembrou do dia em que se conheceram e de todos os segredos que haviam compartilhado.
E os dois sorriram e sorriram, pois toda a memória perdida de Dona Antônia tinha sido encontrada, por um menino que nem era tão velho assim.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O tesouro da palavra

Escrever e contar histórias requer um cuidado imenso. Não dá para baixar a guarda, principalmente quando somos extremamente cuidadosos para não jogar palavras ao vento.... Lidamos com as mais diversas reações e sabemos que, exatamente por isso, uma palavra, uma simples palavrinha, pode carregar um rio imenso de emoções. Pois esta semana pude ler o livro A grande fábrica de palavras, de Agnés de Lestrade, com ilustrações de Valéria Docampo, em uma primorosa edição da Aletria Editora. O texto é extremamente sensível e nos oferece a percepção da importância de cada palavra dita, não dita e ainda de cada palavra impossível de ser pronunciada. Tão sensível quanto mágico, em uma linda história de amor, que reproduzo aqui:

A grande fábrica de palavras

Existe um país onde as pessoas quase não falam.  É o país da grande fábrica de palavras. Nesse estranho país, é preciso comprar as palavras e engoli-las para poder pronunciá-las.  A grande fábrica funciona dia e noite. As palavras que saem de suas máquinas são tão variadas quanto à própria linguagem. Existem palavras que custam mais caro do que as outras.
As pessoas falam muito pouco essas palavras, a menos que elas sejam muito ricas. No país da grande fábrica, falar custa caro. Quem não tem dinheiro às vezes cata palavras nas latas de lixo, mas essas palavras são sem graça: têm muito cocozinho de cabrito e pum de coelho.  
Na primavera, podem comprar palavras em promoção e levar para casa um monte de palavras baratas. Mas quase sempre essas palavras não servem para muita coisa: o que fazer, por exemplo, com ventríloquo e filodendro?
Às vezes, é possível encontrar algumas palavras no ar. Quando isso acontece, os meninos correm com suas redes de pegar borboletas. Eles ficam orgulhosos de poder dizer algumas palavras a seus pais, à noite, no jantar.
Hoje, Philéas pegou três palavras em sua rede. Ele não vai usá-la esta noite, porque quer guardá-las para falar a alguém muito especial.  Amanhã, é o aniversário de Cybelle.  Philéas está apaixonado. Ele gostaria muito de dizer a ela “Eu te amo”, mas ele não tem dinheiro o bastante em seu cofrinho. Então, ele vai oferecer a ela as palavreas que encontrou: cereja, poeira, cadeira.
Cybelle mora na rua ao lado. Philéas bate em sua porta. Ele não diz “bom dia, como vai você?”,  pois não tem essas palavras guardadas.  Em vez disso, ele sorri.  Cybelle está com um vestido vermelho cor de cereja, Ela também sorri
Atrás dela, Philéas vê Oscar, seu maior inimigo. Os pais dele são muito ricos, mas não é por isso que Philéas o detesta. Oscar não sorri. Ele fala. Para Cybelle“Eu te amo com todo o meu coração, minha Cybelle. No futuro, tenho certeza, nós vamos nos casar.”

 “Isso deve ter custado uma fortuna”, pensa Philéas. Cybelle sorri sempre, mas Philéas não sabe para quem é seu sorriso. Nos olhos de Oscar há muita segurança.  “Minhas palavras são muito pequenas!”, pensa Philéas.  Ele suspira profundamente e, sobretudo, pensa em todo o amor que tem em seu coração. Em seguida, fala as palavras que pegou em sua rede. As palavras voam para Cybelle: elas são como pedras preciosas.
Cereja...
Poeira...
Cadeira...
Cybelle não sorri mais, apenas olha para Philéas. Ela não tem palavras guardadas. Então chega devagarzinho perto dele e dá um beijo em seu rosto.
Philéas tem apenas uma palavra a mais para dizer. Ele a encontrou,  há muito tempo, em uma lata de lixo, entre centenas de cocozinhos de cabrito e puns de coelho. Ele ama muito essa palavra, por isso, a guardava para um grande dia. Esse dia chegou! Olhando nos olhos de Cybelle, ele diz:

...Mais! 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A bagunça de pai e mãe

Dia dos pais, dia das mães... Por isso, lembrei-me dessa história encantadora... Ah, que bom seria se pudéssemos jogar tudo para o alto e só fazer coisas gostosas. Pois essa história é de pai e mãe, que resolvem fazer exatamente isso! É do livro Sete histórias para contar, de Adriana Falcão e nos dá a chance de imaginar/sonhar com o momento em que pai e mãe viram crianças prá fazer bagunça:

Historinha ao Contrário
 Esta é uma história de pai e mãe.
Por que todo pai, coitado, tem que ter cara de pai, tem que usar roupa de pai, tem que dizer frases de pai, tem que fazer tudo de pai, mesmo que esteja com vontade de raspar a panela de brigadeiro?
E por que mãe tem que ser mãe o dia inteiro sem parar, para lá e para cá, toc, toc, com aqueles sapatos de mãe, mesmo que esteja a fim de dar uma cambalhota?
Ah, não!
Um dia, um pai e uma mãe resolveram fazer tudo ao contrário.
O pai fechou o jornal, a mãe abriu um sorriso e lá se foram os dois, pulando de um pé só, tomar banho de chuva.
Dançaram que nem dois doidos na praça.
Jogaram muitas pedras nas poças.
Cataram 189 conchas na praia, sendo que 52 estavam esburacadas, 27 eram bastante simpáticas, 18 eram bem bonitas e uma era linda de guardar!
Fizeram castelos na areia enquanto argumentavam com as ondas que esse negócio de derrubar castelo dos outros é uma falta de educação bem molhada.
Comeram rosquinhas e estouraram os sacos.
Contaram os carros que passavam: 876, 877, 879 e perderam a conta.
Discordaram do Sol quando ele começou a se esconder do dia. Em seguida, porém, concordaram que azul-escuro pode ser tão bonito quanto azul-celeste, ainda mais quando aparece uma Lua no meio.
Procuraram, em vão, discos voadores e estrelas cadentes. Só viram mesmo uma andorinha, a quem fizeram um pedido, mas era segredo.
Acharam graça de tudo.
Acharam graça de nada.
Perderam a hora.
Voltaram caminhando só pelos desenhos pretos da calçada.
Apostaram corrida até a esquina e ela ganhou (ou talvez ele tenha deixado que ela ganhasse).
Chegaram em casa felizes, suados, sujos e cansados. Para espanto dos três filhos, que estavam esperando na janela e que logo perguntaram: Vocês podem explicar o que aconteceu???
Como eles não sabiam explicar, pediram uma licencinha e foram para a cozinha comer cachorro-quente, com muita mostarda, maionese e ketchup.
Fizeram uma bagunça danada na cozinha e nem limparam ...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Histórias para bebês

Adorei ter participado desta matéria do Anuário do Bebê, de Caras. O cuidado da jornalista Ana Paula Andrade durante a entrevista demonstrou a delicadeza e o respeito com o ato de contar histórias. Veja o link que traz a entrevista: http://caras.uol.com.br/especial/bebe/post/contar-historias-bebe-cria-lacos-afetivos-linguagem-crianca-aprendizado#image1

A escritora Vanessa Meriqui, autora de quatro livros infantis, fala sobre sua experiência como contadora de histórias e dá dicas para os pais apresentarem a literatura para seus filhos desde a gravidez. Confira:
Quais os benefícios de ler para a criança desde cedo? Ler em voz alta, suavemente, propicia o vínculo amoroso e a memória afetiva. O contar histórias tem como matéria-prima o afeto. E quando uma criança é tratada com amor, isso a prepara para o futuro, pois uma pessoa amada tem condições de sentir-se segura e enfrentar situações difíceis, de encarar o futuro com mais coragem.. Além disso, ouvir histórias desde cedo possibilita que a criança tenha contato com um vocabulário maior, o que é bom para sua formação. E, claro, o ato de contar histórias estimula futuros leitores desde a tenra idade, o que é fantástico para a educação de nossas crianças.
Existe uma idade ideal para começar? Costumo dizer que histórias são indicadas para pessoas de 0 a 110 anos! Na verdade, uma das coisas mais ternas que uma mãe pode fazer é contar histórias para o bebê ainda na fase de gestação. Engana-se quem acha que o feto não ouve. Ele ouvirá e reconhecerá sempre aquele tom de voz, aquele carinho, aquela entrega.
Então a contação é indicada para bebês? Sim, são superindicadas, principalmente se a mãe contou histórias quando ele ainda estava no seu ventre. Pesquisas revelam que o bebê reconhece a voz da mãe desde o útero, então ele terá memória afetiva daquele momento. E será um momento muito prazeroso, de encontro, de calma. Mas se a mãe não contou histórias para seu filho enquanto estava grávida, sempre é hora de começar.
Que tipos de histórias devem ser contadas? Para um bebê pequeno, o que surte efeito é o tom de voz, então o enredo não é o mais importante. É claro que bom senso é fundamental. Histórias de suspense, por exemplo, não são recomendadas. Não faz sentido provocar sons que causem sobressaltos no bebê. Então histórias curtas, meigas, até com pequenas músicas, são recomendadas. Mas se você não tiver um livro em mãos, vale até o contar um caso, uma cena, ou acontecimentos do seu dia, sempre com palavras suaves, como se estivesse contando um conto de fadas. O que importa é o carinho com que se conta.
É preciso determinar um horário para a atividade? Associar a hora da história à hora do sono, principalmente para o bebê, é excelente, pois o acalma e o ajuda a dormir. Mas o importante é que a criança saiba que a hora da história é um momento só dela. Então, se tiver que criar uma rotina para isso, crie. Muitas vezes, em alguma situação em que a criança esteja nervosa ou chorando, uma história pode ser um bálsamo. E aí não é preciso esperar a hora – você faz a hora acontecer.
É melhor dramatizar ou ler normalmente? Ler normalmente já é interessante. Até pode-se dramatizar, dar vozes aos personagens, mas sempre com o cuidado de não provocar sobressaltos. Não grite no ouvido da criança para fazer o lobo mau, por exemplo. Com bebês, não são recomendados movimentos bruscos e vozes assustadoras, nada que cause susto. A história deve ser contada suavemente.
Vale inventar uma história colocando a prória criança como personagem? Para os bebês, não funciona muito. Mas por volta dos três anos, o recurso é válido. Nessa idade, a criança já se compreende como uma pessoa, um ser independente e gosta de se sentir inserida.
As crianças costumam interagir e mudar o rumo das histórias que você conta?
Sim, o tempo todo! Elas interferem na história e costumo acolher essas intervenções, mesmo que sejam totalmente descontextualizadas. Nesse momento, a criança expressa aquilo que mais a incomoda ou que lhe é importante. Há casos onde as crianças revelam seus medos e dúvidas na hora da história. Então, nada de gritar “me deixa terminar de contar!”. É preciso entender que muitas vezes não é a história que importa naquele momento, e sim a oportunidade da troca, do afeto.

E se a criança começar a chorar? É preciso respeitar. Nem sempre é porque ela não gostou da contadora ou da história. É porque aquele momento surtiu alguma reação. Fale com a criança com calma, e se tiver que interromper a história, interrompa.
O jeito de contar histórias muda conforme a faixa etária? Sim. Para crianças maiores, recomendo histórias que mexam com a criatividade, com o lúdico e com a interatividade. Use livros com ilustrações atraentes, grandes e coloridas, que estimulem a percepção visual. Para os bebês, recomendo utilizar narrativas curtas, rechear com canções como acalantos, inserir adereços e utilizar coisas simples, como tecidos coloridos ou objetos - como bolas. Há livros de tecidos, de plásticos ou cartonados, de fácil manuseio para os pequenos.
Qual história você escolheria para introduzir a criança no mundo da ficção? Não dá para generalizar, mas acho que toda criança deve ler e ter ouvir histórias, mitos e lendas, contos de fadas e folclore. Digo isso com muita ênfase. É preciso ler. Recomendo Andersen, Grimm, Monteiro Lobato e autores brasileiros contemporâneos. Toda criança deve ser estimulada a conhecer a biblioteca da sua escola, do seu bairro e visitar livrarias. Ler e ter a literatura em sua vida é crescer para o mundo, toda criança tem o direito de ter essa oportunidade desde bebezinho.
Na sua opinião, por que as histórias têm esse poder de encantar crianças e adultos? Desde sempre e de diferentes formas, o ser humano ouviu e contou histórias. Vivemos tempos, no entanto, em que é preciso restaurar a generosidade do ouvir e ser ouvido, do acolher e do oferecer o bálsamo das histórias. Afinal, conhecer personagens que falem à nossa alma, que nos curem, ou que enfrentem desafios para, ao final, serem felizes para sempre, é buscar a construção de um mundo mais leve. A arte de contar histórias é uma viagem que nos transforma, que nos coloca como contadores e ouvintes, como narradores e protagonistas. Esse é o objetivo do meu trabalho.
Por: Ana Paula de Andrade

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Sobre memória e avós

Hoje é dia dos avós, nossa ancestralidade mais próxima. A memória mais rica que tenho é de minha avó Santinha (o nome dela era esse mesmo, como se fosse uma pequena santa por toda a sua vida). Minha avó Santinha era uma mulher forte, dessas que traz sua mulher selvagem dentro de si sem pestanejar. Poderosa, criou 10 filhos, lavando roupa para fora, costurando, amando meu avô e ensinando seus filhos a serem pessoas boas. E também gostava de ler (foi alfabetizada pelo meu avô depois do casamento e com filhos no colo). Lia e contava histórias.  Tenho certeza de que ela gostaria da história abaixo, uma história terna, meiga e de um profundo respeito aos nossos velhos.

GUILHERME AUGUSTO ARAÚJO FERNANDES

Era uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era tão velho assim.
Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
Ele gostava da senhora Silvano, que tocava piano.
Ele ouvia as histórias arrepiantes, que lhe contava o Sr. Cervantes.
Ele brincava com o Sr. Valdemar, que adorava remar.
Ajudava a senhora Mandala, que andava com uma bengala.
E admirava o Sr. Possante, que tinha voz de gigante.
Mas a pessoa que ele mais gostava era a senhora Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela também tinha quatro nomes, como ele. Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.
Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
- Coitada da velhinha - disse sua mãe.
- Por que ela é coitada? - perguntou Guilherme Augusto.
- Porque ela perdeu a memória - respondeu seu pai.
- Também, não é para menos – disse a mãe. - ela já tem noventa e seis anos.
- O que é memória? - perguntou Guilherme Augusto.
Ele vivia fazendo perguntas.
- É algo de que você se lembre - respondeu o pai.
Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então, ele procurou a Sra. Silvano que tocava piano.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo quente, meu filho, algo quente.
Ele procurou o Sr. Cervantes, que lhe contava histórias arrepiantes.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo.
Ele procurou o Sr. Valdemar, que adorava remar.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar.
Ele procurou a senhora Mandala, que andava com uma bengala.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir.
Ele procurou o Sr. Possante, que tinha voz de gigante.
- O que é memória? - perguntou.
- Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro.
Então Guilherme Augusto voltou para casa, para procurar memórias para Dona Antônia, já que ela havia perdido as suas.
Ele procurou uma antiga caixa de sapatos cheia de conchas, guardadas há muito tempo, e colocou-as com cuidado numa cesta.
Ele achou a marionete, que sempre fizera todo mundo rir, e colocou-a na cesta também.
Ele lembrou-se, com tristeza, da medalha que seu avô lhe tinha dado e colocou-a delicadamente ao lado das conchas.
Depois achou sua bola de futebol, que para ele valia ouro; por fim, entrou no galinheiro e pegou um ovo fresquinho, ainda quente, debaixo da galinha.
Aí, Guilherme Augusto foi visitar Dona Antônia e deu a ela, uma por uma, cada coisa de sua cesta.
"Que criança adorável que me traz essas coisas maravilhosas", pensou Dona Antônia.
E então ela começou a se lembrar.
Ela segurou o ovo ainda quente e contou a Guilherme Augusto sobre um ovinho azul, todo pintado, que havia encontrado uma vez, dentro de um ninho, no jardim da casa de sua tia.
Ela encostou uma das conchas em seu ouvido e lembrou da vez que tinha ido à praia de bonde, há muito tempo, e como sentira calor com suas botas de amarrar.
Ela pegou a medalha e lembrou, com tristeza, de seu irmão mais velho, que havia ido para guerra e que nunca voltou.
Ela sorriu para a marionete e lembrou da vez em que mostrara uma para sua irmãzinha, que rira às gargalhadas, com a boca cheia de mingau.
Ela jogou a bola de futebol para Guilherme Augusto e lembrou do dia em que se conheceram e de todos os segredos que haviam compartilhado.
E os dois sorriram e sorriram, pois toda a memória perdida de Dona Antônia tinha sido encontrada, por um menino que nem era tão velho assim.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Sobre passarinhos e saudades

Há algum tempo tive o privilégio de contar histórias no lançamento do livro Saudades, de Ricardo Viveiros.  Nem preciso dizer da minha emoção em contar uma história de Viveiros, ainda mais com um tema tão difícil. Foi uma experiência linda. Ricardo ficou um tantinho longe de mim, logo atrás, ouvindo minhas palavras em silêncio, enquanto eu juntava às suas palavras as minhas. Ao final, ele me abraçou e escreveu-me coisas de uma lindeza só no livro que me ofereceu.   Hoje, tive outra bela experiência, também a partir de palavras do mesmo autor: encontrei o livro O Poeta e o Passarinho, que contou com o comovente, muito comovente prefácio de Ziraldo e as delicadas ilustrações de Rubens Matuck.  De um misto de candura e dor, Viveiros novamente me ensinou o sentimento de saudades em palavras, coisa que sinto absolutamente todos os dias em pensamento. Como disse Ziraldo, em seu prefácio, “a poesia verdadeira e plena tem que vir do fundo da alma. E quando isso acontece, os versos dos poetas nos atravessam como flechas”.  Pois aqui vão  flechas de Viveiros:

O poeta e o passarinho
Era uma cidade grande, dessas em que dificilmente as pessoas se encontram. Ele vivia em um apartamento, apenas mais uma luz brilhando na imensa paisagem sempre meio escura da metrópole. O homem não era dali e, desde que chegou, tinha esperança de um dia voltar. Criava sonhos, era um poeta.
O tempo foi passando e ele foi ficando. O tempo fingia não passar e o poeta fingia não perceber.
É assim mesmo, só acontece com certas pessoas, que têm esperança, acreditam na felicidade. O poeta, admirado por todos, vivia cercado de pessoas. Mas, na verdade, era muito solitário.
Aquele burburinho ajudava a passar o tempo, sem perceber o tempo passar. Coisa de poeta que tem um sonho na cabeça e acredita na sua realização. Espera que um dia tudo que imagina seja verdade.
E foi assim que, de repente, no parapeito da janela do seu apartamento, caiu um filhote de passarinho. Pequeno, frágil, molhado.
Porque em cidade grande isso acontece, tem pouca árvore segura para se fazer um ninho. Além do que, às vezes, os pais dos passarinhos saem à procura de alimento e são capturados em armadilhas. Ainda por cima, venta e chove nas metrópoles.
O poeta acolheu o filhote de passarinho. Primeiro nas mãos, depois no coração.
Embora bonitinho, ele era bem triste. Os olhinhos sem brilho, as peninhas da cabeça eriçadas e – curioso – parecia sentir frio e medo o tempo todo.
Também pudera! O poeta, que já estava bem mais acostumado com a vida na cidade grande, às vezes também sentia tudo isso.
O tempo foi passando e o poeta continuou vivendo na metrópole, só que agora com o passarinho. Já não era solitário, porque se ocupava em imaginar o que fazer para satisfazer o verdadeiro amiguinho. Opa! Verdadeiro? É isso mesmo, o poeta sentia que esse passarinho era especial, não era um de seus poemas, só mais um sonho.
Juntos, o poeta e o passarinho foram descobrindo, emocionados, várias coisas. Boas, na maior parte das vezes, e – não tem jeito – também algumas ruins. Mas, nestes casos, o poeta tratava de fazer uma espécie de mágica, e tudo ficava bem.
E o passarinho foi mudando. Ficou mais bonito, esperto e cantava muito bem. Até as peninhas da cabeça, como os olhos, ficaram suaves, brilhantes. O passarinho havia crescido, por dentro e por fora.
O poeta, então, começou a ter um novo sonho... Incrível! Este era o maior de todos os sonhos. E você já sabe, poeta acredita que sonho pode ser realidade.
Na cabeça do poeta tudo estava bem claro, fácil de concretizar. E lá foi ele sonhando para asi mesmo e, claro, também para o passarinho. E por que não? Os dois haviam sido feitos um para o outro. Paixão igual só mesmo em poesia.
E o poeta criava o futuro! Ele e o passarinho iriam embora, vier no campo, em uma casa rodeada de árvores – afinal, passarinho e poeta adoram árvores. Lá, em harmonia, iriam cantar e, quem sabe – loucura de poeta – até construir ninhos para evitar mais passarinhos perdidos e solitários nas cidades grandes.
E criar poetas também. O mundo precisa de gente que sonha e gosta de passarinhos...
E se é sonho, que seja o maior!
Enquanto isso, o passarinho aprendia a viver e a gostar do que havia de melhor no mundo. Para o passarinho, agora a metrópole começava a ficar pequena... Seguro, conhecendo tantas novidades, com novos amigos, perninhas firmes para pular, asinhas longas para voar, o passarinho era dono do próprio bico. Parecia sabido demais...
Um dia, desses que para todo mundo sempre é igual – mas para o poeta é diferente –,  o passarinho olhou fixo nos olhos do amigo, deu um voo rápido em volta de sua cabeça e saiu pela janela. Aquela mesma onde, tempos atrás, ele havia caído por um acaso do destino.
O poeta pensou (ou sonhou de novo) que o passarinho só iria dar um passeio. E nem ficou preocupado – agora, o amiguinho já podia voar sem perigo, já conhecia tudo sobre a vida.
Mas como a vida nunca permite que a gente descubra tudo sobre ela –, uma espécie de proteção para continuar sendo o mais belo mistério da humanidade – o poeta estava errado.  E o passarinho também.
O passarinho nunca voltou. O poeta sempre esperou. 

sábado, 22 de junho de 2013

A cor do desassossego

“Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...” Penso que Chico Buarque estava iluminado quando escreveu isso. E penso que Adriana Falcão estava igualmente iluminada quando escreveu uma história que fala de uma dorzinha na alma, difícil de explicar. Uma história tão delicada quanto colorida, que conto abaixo:

A Dor Azul
A menina sentia uma dor azul todos os dias, ali pelas cinco horas da tarde. Não era uma dor grandona, de puxar o choro para fora. Era só uma dorzinha. Mas era uma bem azulona.  Achavam que era maluquice. “Dor não tem cor!”
Mas como a dor azul não passava, começaram a achar que ela doía mesmo. Levaram a menina para todos os médicos do mundo, fizeram todos os exames que existiam, e ninguém descobriu o que era aquilo. Procuraram então um psicólogo e, é claro, que ele achou que aquilo era psicológico. A dor azul não queria saber. Ia e vinha. Sempre na mesma hora.
Os anos foram passando e o azul da dor continuava colorindo as tardes da menina. Só as tardes. De manhã, ela sentia uma saudade lilás. E, à noite, um desejo prata que ela não sabia bem de quê.
A menina cresceu. E um dia conheceu um rapaz que sentia uma vontade violeta de espirrar nas manhãs nubladas. Eles se gostaram, um gostar laranja que foi se avermelhando sem parar, até que se casaram, numa noite dourada de alegria, cheia de luzinhas roxas de paixão.
Um ano depois, numa madrugada de cheiros cor-de-rosa, ela teve uma filhinha. E nunca ela tinha sentido um carinho tão verde em toda sua vida.
A filha da menina cresceu, herdou a vontade violeta de espirrar do pai e, da mãe, o desejo prateado. E a menina, que já era mulher, descobriu que o nome da dor azul, como está do dicionário, é desassossego. E que esse desassossego queria dizer, mais ou menos, em palavras de adultos “Como será que vai ser a minha vida?”. Puro desassossego...

domingo, 16 de junho de 2013

Tatiana chega ao céu!

Lembro-me que há alguns anos fui à casa de Tatiana Belinky convidá-la para um projeto. Meu coração batia tanto, que eu não conseguia distinguir se era pela minha emoção de encontrar aquele mito, por tudo o que ela representava para literatura brasileira, ou se pela minha ousadia de ir até lá expor um projeto meu para Tatiana Belinky.  Encontrei uma senhorinha sorridente, com olhinhos pequenos e brilhantes, que não parava de falar. Adorou meu projeto (que por conta de um editor não foi para frente) e me deixou muito feliz. 
Ela estava descalça e andava com passinhos rápidos e curtos pelas estantes de sua sala à caça de livros para me mostrar. Eu mal conseguia falar de tanta emoção. Ela parecia, naquele momento, infinitamente mais jovem do que eu, empolgada, forte, sonhadora, feliz como uma criança, na deliciosa tarefa de mostrar todos os seus brinquedos para um novo amiguinho. Ela me falou de seus limeriques (que eu já amava), me falou do quanto as crianças vem sendo maltratadas e até me recitou o seu clássico “Ser criança é dureza”

Ser criança é dureza-
Todo mundo manda em mim-
Se pergunto o moitivo,
Me respondem "porque sim".

Isso é falta de respeito,
"Porque sim" não é resposta,
Atitude autoritária
Coisa que ninguém gosta!

Adulto deve explicar
Pra criança compreender
Esses "podes" e "não podes",
Pra aceitar sem se ofender!

Criança exige carinho,
E sim! Consideração!
Criança é gente, é pessoa,
Não bicho de estimação!

Tatiana Belinky deve ter chegado ao Céu hoje já procurando Monteiro Lobato para lhe dizer  -  E aí, meu amigo, vamos até o Sítio do Picapau Amarelo tomar um chá com Dona  Benta?  E ele, sorrindo, delicadamente lhe oferecerá o braço e responderá: - vamos sim, que a tia Anastácia só estava esperando você chegar para fritar os bolinhos!
Se assim for, serei feliz...


sábado, 15 de junho de 2013

O desafio das escolhas


Já li e contei essa história muitas e muitas vezes. A reflexão é sobre o desafio de difíceis escolhas que, quase sempre, pesam tanto que tornam nossos passos infinitamente dolorosos. E aí, acredito que se tivermos um preparo de alma, conseguimos criar um mecanismo de autopreservação. Por isso adoro essa história de Marina Colasanti, chamada "As Notícias e o Mel". Que maravilhosa escolha a desse rei... E que bom saber que, às vezes, podemos ter a condição de fazer opções em nossas vidas.

As Notícias e o Mel

Um dia o rei ficou surdo. Não como uma porta, mas como uma janela de dois batentes.  Ouvia tudo do lado esquerdo. Do lado direito, não ouvia nada. A situação era incômoda, Só atendia aos ministros que sentavam de um lado do trono. Aos outros, nem respondia. E até mesmo de manhã, se o galo cantasse do lado errado, Sua Majestade não acordava e passava o dia inteiro dormindo.
Foi quando mandou chamar o gnomo da floresta. E o gnomo, obediente, apareceu na corte. Veio voando, com suas asinhas. Tão pequeno que, embora todos avisados de sua chegada, quase o confundiram com um inseto qualquer.
Chegou e logo se entendeu com o rei, estabelecendo um trato.  Ficaria morando no ouvido direito e repetiria para dentro – e bem alto – tudo o que ouvisse lá de fora. Tendo asas, e desejando, poderia aproveitar seu parentesco com as abelhas para fabricar no ouvido real alguma cera e um pouco de mel. O trato funcionou às mil maravilhas. Tudo o que o gnomo ouvia, repetia em voz bem alta nas cavernas da orelha, e o eco e a voz do gnomo chegavam até o rei, que passou a entender como antigamente, de lado a lado.
Correu o tempo. Rei e gnomo, assim tão vizinhos, foram ficando cada dia mais íntimos. Um já sabia tudo do outro e era com prazer que o gnomo gritava e era com prazer que o rei ouvia o zumbidinho das asas atarefadas no fabrico da cera e do mel. Uma certa doçura começou a espalhar-se do ouvido real para a cabeça e o rei foi ficando, aos poucos, mais bondoso.
Foi essa a causa da primeira mentira.
O Primeiro Ministro deu uma má notícia no ouvido esquerdo e o gnomo, não querendo entristecer o rei, transmitiu uma boa notícia no ouvido direito.
Foi essa a primeira vez que o rei ouviu duas notícias ao mesmo tempo. Foi essa a primeira vez que o rei escolheu a notícia melhor ...
Houve outras depois.
Sempre que alguma coisa ruim era dita ao rei, o gnomo a transformava em alguma coisa boa. E sempre que o rei ouvia duas notícias, escolhia a melhor delas.
Aos poucos, o rei foi deixando de prestar atenção naquilo que lhe chegava do lado esquerdo, E até mesmo de manhã, se o galo cantasse desse lado e o gnomo não repetisse o canto do galo, Sua Majestade esquecia-se de ouvir e continuava dormindo tranqüilo até ser despertado pelo chamado do amigo.
De um lado o mel escorria. Do outro, chegavam as preocupações, as tristezas, e todos os ventos maus pareciam soprar à esquerda de sua cabeça.
Mas o rei tinha provado o mel e a doçura era agora mais importante do que qualquer notícia. Entregou o trono e a coroa para o Primeiro Ministro. Depois chamou o gnomo para junto da boca e murmurou-lhe baixinho a ordem.
Obediente, o gnomo voou para o lado esquerdo e, aproveitando seu parentesco com as abelhas, fabricou algum mel e abundante cera, com a qual tapou para sempre o ouvido do rei.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Mushkil Gusha - uma história para uma bela quinta-feira

Esta é a história de Mushkil Gusha, que ganhei de meu amigo Bruno numa tarde de quinta-feira. A história fala em tâmaras, mas ele comeu uvas passas e presenteou-me com lindos e saborosos damascos, junto com este maravilhoso texto.  “É uma história iraniana muito antiga, que trata do compromisso com a coisa certa e de como é fácil esquecermos nossos valores, cair em tentação, nos desvirtuarmos”, explicou-me Bruno.  ainda explicou-me sobre a importância de se manter o ritual de distribuí-la às quintas-feiras, Meu amigo tinha toda razão e vocês entenderão o por quê.

A História de Mushkil Gusha

Era uma vez, a menos de mil milhas daqui, um pobre lenhador viúvo, que vivia com sua pequena filha. Todos os dias costumava ir às montanhas cortar lenha, que levava para casa e atava em feixes. Depois da primeira refeição, caminhava até o povoado mais próximo, onde vendia a lenha e descansava um pouco antes de voltar para casa. Um dia, ao chegar em casa, já muito tarde, a menina lhe disse:
- Pai, de vez em quando gostaria de ter uma comida melhor, em maior quantidade e mais variada.
- Está bem, minha filha - disse o velho -, amanhã levantarei mais cedo do que de costume, irei mais alto nas montanhas, onde há mais lenha, e trarei uma quantidade maior do que a habitual. Voltarei mais cedo para casa, atarei os feixes mais depressa e irei logo ao povoado vendê-los para conseguirmos mais dinheiro. E lhe trarei uma porção de coisas deliciosas.
Na manhã seguinte, o lenhador levantou-se antes da aurora e partiu para as montanhas. Trabalhou arduamente cortando lenha e fez um feixe enorme, que carregou nos ombros até sua casa. Ao chegar era ainda muito cedo. Então, colocou a carga no chão e bateu à porta, dizendo:
 - Filha, filha, abra a porta. Estou com sede e fome; preciso comer alguma coisa antes de ir para o mercado.
 Mas a porta continuou fechada. O lenhador estava tão cansado que se deitou no chão, ao lado do feixe de lenha, e logo adormeceu. A menina, esquecida da conversa da noite anterior, dormia profundamente. Quando o lenhador acordou, algumas horas depois, o sol já estava alto. Bateu novamente à porta e disse:
 - Filha, filha, abra logo. Preciso comer alguma coisa antes de ir ao mercado vender a lenha, pois já é muito mais tarde do que de costume.
 Mas a menina que tinha esquecido completamente a conversa da noite anterior, tinha se levantado, arrumado a casa e safra para dar um passeio. Em seu esquecimento, e supondo que o pai já tivesse ido para o povoado, deixou a porta da casa fechada. Assim, o lenhador disse a si mesmo:
 - Já é muito tarde para ir à cidade. Voltarei para as montanhas e cortarei outro feixe de lenha, que trarei para casa, e amanhã terei carga em dobro para levar ao mercado.
 O lenhador trabalhou duro aquele dia, cortando e enfeixando lenha nas montanhas. Já era noite quando chegou em casa com a lenha nos ombros.
 Pôs o feixe atrás da casa, bateu à porta e disse:
 - Filha, filha, abra a porta. Estou cansado e não comi nada o dia todo. Trago uma dupla carga de lenha, que espero levar ao mercado amanhã. Preciso dormir bem esta noite para recuperar minhas forças.
 Mas não houve resposta, pois a menina, sentindo muito sono ao voltar do passeio, preparou sua comida e foi para a cama. A princípio, ficara preocupada com a ausência do pai, mas tranqüilizou-se logo, pensando que ele passaria a noite no povoado.
 Cansado, faminto e com sede, vendo que não podia entrar em casa, o lenhador deitou-se novamente ao lado da lenha. Apesar de preocupado com o que poderia estar acontecendo com a filha, não conseguiu ficar acordado: adormeceu logo. Mas, como estava com muito frio, muita fome e muito cansado, acordou bem cedo na manhã seguinte, antes mesmo de o dia clarear.
Sentou-se, olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada. Nesse momento, aconteceu uma coisa estranha. Pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:
 - Depressa! depressa! Deixa tua lenha e vem por aqui. Se necessitas muito e desejas o suficiente, terás uma refeição deliciosa.
O lenhador levantou-se e caminhou na direção de onde vinha a voz. Andou, andou e andou, mas não encontrou nada. Então sentiu mais cansaço, frio e fome do que antes e, além do mais, estava perdido. Tivera muitas esperanças, mas isso não parecia tê-lo ajudado. Ficou triste, com vontade de chorar, mas percebeu que chorar também não o ajudaria. Assim, deitou-se e adormeceu. Logo depois acordou novamente. Sentia frio e fome demais para poder dormir. Foi então que lhe ocorreu narrar a si mesmo, como se fosse um conto, tudo o que tinha acontecido desde que a filha lhe pedira um tipo de comida diferente.
 Mal terminou sua história, pareceu-lhe ouvir outra voz, vinda de algum lugar no alto, como se saísse do amanhecer, que dizia:
 - Velho homem, velho homem, que fazes sentado aqui?
 - Estou me contando minha própria história - respondeu o lenhador.
- E qual é?
O lenhador repetiu sua narração.
- Muito bem - disse a voz, e a seguir lhe pediu que fechasse os olhos e subisse um degrau.
- Mas não vejo degrau algum - disse o velho.
- Não importa, faz o que te digo - ordenou a voz.
O homem fez o que lhe fora ordenado. Mal fechou os olhos, descobriu que estava de pé e, levantando o pé direito, sentiu que debaixo dele havia algo semelhante a um degrau. Começou a subir o que parecia ser uma escada. De repente os degraus começaram a mover-se - moviam-se muito rapidamente - e a voz lhe disse:
- Não abra os olhos até que eu ordene.
Não se passara muito tempo, quando a voz mandou que o velho abrisse os olhos. Ao fazê-lo, o lenhador achou-se num lugar que parecia um deserto, com um sol escaldante acima dele. Estava rodeado de montes e montes de pedrinhas de todas as cores: vermelhas, verdes, azuis, brancas. Mas parecia estar só; olhou em volta e não conseguiu ver ninguém. Então, a voz começou a falar de novo:
- Apanha todas as pedras que puderes, fecha os olhos e desce os degraus.
O lenhador fez o que lhe mandavam e, quando a voz ordenou que abrisse os olhos novamente, encontrou-se diante da porta de sua própria casa. Bateu à porta, e a sua filha veio atender. Ela lhe perguntou por onde ele tinha andado, e o pai lhe contou o ocorrido, embora a menina mal entendesse o que ele dizia, porque tudo lhe parecia muito confuso.
Entraram em casa e a menina e o seu pai repartiram a última coisa que lhes restava para comer: um punhado de tâmaras secas. Quando terminaram a comida, o velho achou que estava novamente ouvindo uma voz, uma voz igual àque-la que o mandara subir os degraus.
- Embora ainda não o saibas - disse a voz - foste salvo por Mushkil Gusha. Lembra-te: Mushkil Gusha está sempre aqui. Promete a ti mesmo que todas as quintas-feiras, à noite, comerás umas tâmaras, e darás outras a alguma pessoa necessitada, a quem contarás a história de Mushkil Gus-ha. Ou darás um presente, em seu nome, a alguém que ajude os necessitados. Promete que a história de Mushkil Gusha nunca, nunca será esquecida. Se fizeres isso, e o mesmo fizerem as pessoas a quem contares a história, os que tiverem verdadeira necessidade sempre encontrarão seu caminho.
 O lenhador então colocou todas as pedras que havia trazido do deserto num canto do casebre. Pareciam simples pedras, e ele não soube o que fazer com elas. No dia seguinte, levou seus dois enormes feixes de lenha ao mercado e os vendeu facilmente, por ótimo preço. Ao voltar para casa, levava para sua filha uma porção de iguarias deliciosas que ela jamais havia provado antes. Quando terminaram de comer, o velho lenhador disse:
 - Agora vou lhe contar a história de Mushkil Gusha. Mushkil Gusha significa "O dissipador de todas as dificuldades". Nossas dificuldades desapareceram por intermédio de Mushkil Gusha, e devemos lembrá-lo sempre.
 Durante uma semana o homem seguiu sua rotina. Ia às montanhas, trazia lenha, comia alguma coisa, levava a lenha ao mercado e a vendia. Sempre encontrava comprador, sem dificuldade.
 Mas chegou a quinta-feira seguinte e, como é comum entre os homens, o lenhador se esqueceu de contar a história de Mushkil Gusha. Nessa noite, já tarde, apagou-se o fogo na casa dos vizinhos. E, como não tinham com que voltar a acendê-lo, foram à casa do lenhador e disseram:
 - Vizinho, vizinho, por favor, dê-nos um pouco de fogo dessas suas lâmpadas maravilhosas que vemos brilhar através da janela.
 - Que lâmpadas? - perguntou o lenhador.
- Venha cá e veja - responderam.
O lenhador saiu e viu claramente a variedade de luzes que, vindas de dentro, brilhavam através de sua janela. Entrou e viu que a luz saía do monte de pedras que havia posto num canto. Mas os raios de luz eram frios e era impossível usá-los para acender fogo. Então, tornou a sair e disse:
- Sinto muito, vizinhos, não tenho fogo - e bateu-lhes a porta no nariz.
Os vizinhos ficaram aborrecidos e surpresos e voltaram para casa resmungando. E aqui eles abandonam nossa história. Rapidamente, o lenhador e sua filha, com medo que alguém visse o tesouro que possuíam, cobriram as brilhantes luzes com todos os trapos que encontraram. Na manhã seguinte, ao destampar as pedras, descobriram que eram gemas luminosas e preciosas.
 Uma a uma, levaram-nas às cidades dos arredores, onde as venderam por um preço enorme. Então, o lenhador decidiu construir um esplêndido palácio para ele e sua filha.
Escolheram um lugar que ficava exatamente na frente do castelo do rei de seu país. Pouco tempo depois, um edifício maravilhoso estava construído.
 O rei tinha uma filha muito bonita que uma manhã, ao acordar, viu o castelo, que parecia de contos de fadas, bem em frente ao de seu pai. Muito surpresa, perguntou a seus criados:
 - Quem construiu esse castelo? Com que direito fazem uma coisa dessas tão perto do nosso lar?
 Os criados saíram e investigaram. Ao regressar, contaram à princesa tudo o que conseguiram saber. A princesa, muito zangada, mandou chamar a filha do lenhador. Porém, quando as duas meninas se conheceram e se falaram, logo tornaram-se boas amigas. Encontravam-se todos os dias e iam nadar e brincar juntas num regato que o rei mandara fazer para a princesa.  Alguns dias depois do primeiro encontro, a princesa tirou um colar lindo e valioso e pendurou-o numa árvore à beira do regato. Na volta, esqueceu-se de apanhá-lo e, ao chegar em casa, pensou que o tinha perdido. Refletindo melhor, porém. concluiu que tinha sido roubado pela filha do lenhador.
 Contou tudo ao pai, que mandou prender o lenhador e confiscou-lhe todos os bens. O homem foi posto na prisão, e sua filha levada para um orfanato.
 Como era costume no país, depois de algum tempo o lenhador foi retirado de sua cela e levado para praça pública, onde o acorrentaram a um poste, tendo pendurado ao pescoço um cartaz onde se lia:
 "E isto que acontece a quem rouba dos reis."
 A princípio, as pessoas juntavam-se à sua volta zombando dele e atirando-lhe coisas. O lenhador estava muito infeliz. Porém, como é comum entre os homens, logo se acostumaram com o velho sentado junto ao poste e lhe prestavam cada vez menos atenção. Às vezes lhe atiravam restos de comida, às vezes nem mesmo isso.
 Uma tarde, ouviu alguém dizer que era quinta-feira. De imediato veio-lhe à mente o pensamento de que logo seria a noite de Mushkil Gusha, "O dissipador de todas as dificuldades", a quem há tanto tempo se esquecera de comemorar. No mesmo instante em que esse pensamento lhe chegou à mente, um homem caridoso que passava jogou-lhe uma moeda.
 - Generoso amigo - chamou-o o lenhador - você me deu dinheiro que para mim não tem utilidade alguma. Mas se, em sua generosidade, puder comprar uma ou duas tâmaras e vir sentar-se comigo para comê-las, eu lhe ficaria eternamente grato.
 O homem saiu e comprou algumas tâmaras, sentou-se a seu lado e comeram juntos. Ao terminar, o lenhador contou-lhe a história de Mushkil Gusha.
 - Acho que você deve estar louco - disse-lhe o homem generoso.
 Mas era uma pessoa compreensiva e também enfrentava muitas dificuldades. Ao chegar em casa, depois desse incidente, percebeu que todos os seus problemas estavam resolvidos. Isto o fez pensar mais seriamente a respeito de Mushkil Gusha. Mas aqui ele deixa nossa história.  No dia seguinte, pela manhã, a princesa voltou ao lugar onde se banhara e, quando ia entrar na água, viu, no fundo do regato, uma coisa que parecia ser seu colar. Porém, no momento em que ia pegá-lo, espirrou, jogou a cabeça para trás, e viu que o que tomara por seu colar era apenas o reflexo dele na água. O colar estava pendurado no galho de uma árvore, no mesmo lugar onde o tinha deixado há muito tempo. Emocionada, apanhou-o e foi correndo contar ao rei o acontecido. Este ordenou que o lenhador fosse posto em liberdade e que lhe pedissem desculpas em público. Tiraram a menina do orfanato e todos viveram felizes para sempre.


É por causa de Mushkil Gusha que esta história, em qualquer de suas formas, é lembrada por alguém, em algum lugar do mundo, dia e noite, onde quer que exista gente. Tal como sempre tem sido contada, assim continuará a ser contada eternamente. Você quer repetir essa história nas noites de quinta-feira e ajudar, assim, o trabalho de Mushkil Gusha?
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

A prosa de Cora

Descobri, emocionada, a prosa de Cora Coralina.  Debrucei-me sobre seus livros trazidos da Casa da Ponte, que visitei em Goiás Velho, certa do reencontro sempre prazeroso com sua poesia.  Surpreendeu-me, na verdade, a sua prosa, rica, vigorosa e crítica.  Para quem já havia lido a poesia de Cora em forma de versos, foi uma grande emoção ler sua poesia sem rimas e métricas. Pois assim é a sua prosa – pura poesia.  Descobri Cora Coralina como uma contadora de histórias (“estórias, dizia ela, pois não sou historiadora e nem memorialista, conto apenas e sempre as estórias do cotidiano, as verdades e mentiras”).  Numa narrativa de puro encantamento, ela nos oferece contos e causos de sua cidade e das gentes de Goiás, coisas dos acontecidos na Casa da Ponte, onde nasceu e morreu, coisas do ser humano e de suas vidas doces ou difíceis. Cora Coralina nos conta, com delicadeza – ora  com fina ironia e até tristeza – mas sempre lindamente, as histórias de seu tempo.  No texto abaixo, um trecho de A menina, as formigas e o boi, publicado postumamente no livro O Tesouro da Casa Velha.

A menina, as formigas e o boi

     Sempre gostei de olhar carreirinha de formiga.  Seus movimentos. Suas constâncias.  Acho que aprendi muito com elas, que formiga muito ensina. Aquele vaivém continuado, aquele poder. Suas cargas pesadas, todas coletivas, intencionadas. Carregos de coisas misteriosas, fanicos, indistintos. Elas sábias, instruídas, sagazes. De menina, debruçava na terra. Olhava. Acompanhava. Criava estorvos Cacos cheios d´água, depois dava ponte. Salvava. Repunha. Malvadezas de crianças. Vezes outras trazia agrados. Punhados de farinha grossa. Espalhava no carreirinho delas. Recolhiam grã a grã. Vassouravam, levavam tudo para sua casa subterra. 
     Eu inventava coisas. Entrava com elas casa adentro. Belezas. Jardins, mesas, cadeirinhas, redinhas. Crianças formigas balançando. Brincando de roda, cantando “senhora dona Sancha”. Eu com elas.
     Em casa misturava essas coisas. Contava. Afirmava. Tinha entrado na casinha delas. Os vistos. Recontava. Jurava. Minhas irmãs gritavam. Mãieeee... Aninha já vem com a inzonas dela... Vem vê ela... Mãe vinha altaneira. Ralhava forte. Me fazia calar. Tinha medo. Fosse tara, um ramo de loucura, eu sendo filha de velho doente.
     ... (As formigas encontram a perna de um boi e a levaram para o formigueiro) ... Perdi o prazo das horas. Pensei ajudar. Botar na entrada. Desisti. Deixei tudo por conta delas. Ficar ali de fiscal, curiosa no que se ia dar. Mãe chamou lá em casa. Surdei. Mãe não tornou a chamar. Decerto chegou visita....Introduziram tudo. Deram jeito, diligentes formiguinhas... Eu olhando, boba. Aprendendo, que formiga muito ensina. Mestras. Um boi para elas, povinho miúdo de Deus, diligente, influído, achado no carreador, particular delas.