quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Cola tudo para o novo ano

Final de ano chegando e, com ele,  aquela inevitável e boa sensação de que o novo ano será melhor. E será mesmo... é bom acreditar nisso. E para não olhar para trás, versinhos singelos de Flora Figueiredo.                       

 COLA-TUDO

Encontrei um verso fraturado,
Caído na esquina da rua do lado.
Tinha se perdido de um coração saudoso
Que passava por ali, desiludido.
Coloquei-o de pé,
Emendei seus pedaços,
Refiz suas linhas,
Retoquei seus traços.
Afaguei suas dores como se fossem minhas.
Agora, novamente estruturado,
Espero que ele não olhe para trás
E não misture sonhos
Com amargas falências do passado;
Que saiba enfeitar a estrela lá na frente
Com fartos laços de rima colorida.
... Pois é para o futuro que caminham
Todos os passos apressados desta vida.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um conto de Natal

Procurei um conto de Natal para o blog esta semana e encontrei este que, segundo referências, é baseado em uma história de Natal atribuída a León Tolstoi. É um conto cristão um pouco óbvio e muito singelo. Por isso, peço que esqueçam a obviedade e deliciem-se com a generosidade deste belo conto.

O Aldeão
Um aldeão russo, muito devoto, constantemente pedia em suas orações que Jesus viesse visitá-lo em sua humilde choupana.
Na véspera do Natal sonhou que o Senhor iria aparecer-lhe. Teve tanta certeza da visita que, mal acordou, levantou-se imediatamente e começou a pôr a casa em ordem para receber o hóspede tão esperado.
Uma violenta tempestade de granizo e neve acontecia lá fora. E o aldeão continuava com os afazeres domésticos, cuidando também da sopa de repolho, que era o seu prato predileto.
De vez em quando ele observava a estrada, sempre à espera...
Decorrido algum tempo, o aldeão viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade em meio a borrasca de neve. Era um pobre vendedor ambulante, que conduzia às costas um fardo bastante pesado.
Compadecido, saiu de casa e foi ao encontro do vendedor. Levou-o para a choupana, pôs sua roupa a secar ao calor da lareira e repartiu com ele a sopa de repolho. Só o deixou ir embora depois de ver que ele já tinha forças para continuar a jornada.
Olhando de novo através da vidraça, avistou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi buscá-la, e abrigou-a na choupana. Fez com que sentasse próximo à lareira, deu-lhe de comer, embrulhou-a em sua própria capa...
A noite começava a cair... Não a deixou partir enquanto não readquiriu forças suficientes para a caminhada. E nada de Jesus!
Já quase sem esperanças, o aldeão novamente foi até a janela e examinou a estrada coberta de neve. Distinguiu uma criança e percebeu que ela se encontrava perdida e quase congelada pelo frio...
Saiu mais uma vez, pegou a criança e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida ao calor da lareira.
Cansado e desolado, o aldeão sentou-se e acabou por adormecer junto ao fogo. Mas, de repente, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo!
Diante do pobre aldeão, surgiu risonho o Senhor, envolto em uma túnica branca! - Ah! Senhor! Esperei-O o dia todo e não aparecestes, lamentou-se o aldeão...
E Jesus lhe respondeu: "Já por três vezes, hoje, visitei tua choupana: O vendedor ambulante que socorrestes, aquecestes e deste de comer... era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa... era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, também era Eu..."

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Pó de Sono e Poesia

Sabem aquela história do Mais prá lá do Quipracá? Pois é, prosa e poesia se encontram nas vozes dos seres mágicos que habitavam a Terra do Sono. E essa história foi contada no blog Pó de Sono e Poesia. Alexandra Pericão, Tamara Elis e eu contamos a história de Flávia Muniz, recheada com rimas gostosas, poesias deliciosas, música e muita brincadeira.
http://sonoepoesia.blogspot.com/2011/12/normal.html?spref=fb

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Curtas e Birutas 2

Quem está entrando somente hoje no blog, vou explicar. Ontem comecei a contar a história da Bruxa Uxa o o Elefantinhozinhozinhozinho. É da Sylvia Orthoff e está publicada no livro Histórias Curtas e Birutas. Vai no post de ontem para conhecer bem a história, por favor. E abaixo, começo a segunda parte.


Pois é, a Bruxa Uxa tinha acabado de cair, quebrando a sua 88a. vassoura e encontrado o elefantinho.
- Como é seu nome? - perguntou o elefantinhozinhozinhozinho.
- Meu nome é Uxa, a Bruxa. E então, a bruxa percebeu que ele já estava dormindo. Culpa das estrelas. Sempre que a bruxa Uxa sai, as estrelas, chatíssimas, cantam cantigas de ninar elefantes. Uma droga. Uxa queria conversar com o elefantinho, perguntar aquelas bestagens todas que o adulto pergunta, assim na base de quantos anos você tem, você já está no colégio, etc e tal. Mas o elefantinho dormia, roncava, e as estrelas, esganiçadíssimas, desafinavam cantigas de embalar. Pouco a pouco, todos os elefantes dormiam.
Aí, Uxa pegou uma violeta gigante disse abracadabra, jogou pro céu, acertando todas as estrelas, que caíram, ficando pequeninas, menores do que os elefantes.
Depois, Uxa pegou um palito de fósforos, que naquele país era enorme, amarrou uns cabos de capim gigante (que lá era capim anão) e fabricou outra vassoura. Montou, voou, subiu, desceu, contou uma piada, riu alto e acordou o elefantinho.
- Quantos anos você tem? - perguntou Uxa.
- Eu tenho a idade do faz de conta, dividido por duas bruxas vezes sete! - respondeu o elefantinho
- E você já vai ao colégio, elefantinho?
Foi aí que o elefantinho ficou danado. Que mania que têm os adultos de fazerem SEMPRE as mesmas perguntas!
O que o elefantinho respondeu, não posso dizer. É palavrão elefântico. Naquele país, palavrão é palavrinha... mas aqui, se eu disser, os adultos, SEMPRE IGUAIS, vão implicar. Mas você pode completar... depois, passe uma borracha, pra sua tia não desmaiar, tá.
A bruxa Uxa desmaiou ! Só acordou 300 anos depois. Nem reparou que os tempos tinham mudado. Continua fazendo as mesmas perguntas para outras crianças...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Curtas e birutas

Sylvia Orthoff produz textos encantadores e muito envolventes. Delícia de contar. O texto abaixo está no livro Histórias Curtas e Birutas, cuja primeira edição foi publicada em 1982. De lá prá cá, ela criou várias outras histórias curtas, birutas, engraçadas, enroladas, de trás prá frente, caindo pelas tabelas, etc e tal. Bom, vamos começar por essa. 


A Bruxa Uxa e o elefantinhozinhonhozinhonhozinho
Quando a bruxa Uxa sai na sua vassoura, os gatos miam, a lua fica roxa, o céu fica cheio de estrelas  que cantam cantigas de ninar elefantes, umas cantigas dificílimas, que só estrelas sabem cantar e que só os elefantes sabem ouvir. São coisas de encantamento, não dá para explicar. Quem quiser acreditar, acredite. Eu não acredito, mas invento e acabo acreditando.
A bruxa Uxa é muito gorda, tão pesada que já quebrou oitenta e sete vassouras. As bruxas usam vassouras pra voar, deixam tudo sem varrer, viram o mundo de pernas prá lá. Assim é Uxa, a bruxa: tem olhos da cor do mar, com dois peixes dentro, nadando. Tem cabelos cor de mel, melados, cheios de abelhas maravilhosas. Tem pernas pra que te quero, que são pernas que dão um trabalho infernal para os desenhistas desenharem. 
A bruxa Uxa, naquela noite, deu três gargalhadas, sacudiu a pança. montou a vassoura e voou em linha reta, em círculo, em oval, em triângulo mineiro. Dificílimo voar em triângulo mineiro, por causadas minas, muito gerais. 
Mas Uxa é bruxa, lá vai ela, voa, voa até chegar num lugar cheio de elefantes pequeninos. Fica num país longe, onde tudo que aqui é grande lá é pequeno. Lindo !
A bruxa chegou, foi chegando pum! ploc! pof! A vassoura número oitenta e oito quebrou em oitenta e oito pedaços. A bruxa caiu bem em cima de uma plantação de violetas enorme. Naquele país, as violetas são enormes e os girassóis tão pequeninos que parecem mosquitos. A bruxa caiu, achou um barato, ficou toda violetada, perfumada, sacudiu as abelhas dos cabelos de mel, piscou os peixes dos olhos, bailou ao luar. 
Aí, chegou um elefantinho perto dela. Era do tamanho do desenho que você está vendo... não, o desenhista errou: era menor, xente !


E como essa história é curta e biruta, vou parar de contar, porque a outra parte fica prá amanhã.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O DOM DA HISTÓRIA

Final de semana cheio de histórias. A começar no sábado, pela manhã, quando participei do programa da Elaine Gomes, Que História é Essa. Elaine e eu, que não paramos de falar um minuto, falamos do lançamento do livro dela, na semana passada, na Livraria Cultura, falamos do ano que está terminando, do que vai começar, de planos, livros, e um monte de coisas. E ainda deu tempo para contar histórias. O repertório foi montado com "Contos de Generosidade". Entre eles, contei uma história que faz parte do livro O Dom da História, de Clarissa Pinkola Estés. Conectada ao programa, estava Elaine Cunha, que pediu no ar para que eu postasse esta história. Então aqui vai, com um beijo especial para as Elaines que dividiram a manhã de sábado comigo.


Viviam apaixonados uma linda moça e um belo rapaz. Embora tivessem perdido muito com a guerra, eles ainda possuíam dois bens valiosos para os dois. O rapaz havia conseguido não se desfazer do relógio de bolso de seu avô e se sentia-se orgulhoso em informar as horas tirando-o de seu bolso do colete surrado. E a moça, apesar de mal nutrida há muito tempo, ainda tinha uma longa e vasta cabeleira, que mais parecia um manto quando a moça a soltava. E assim, ricos dessa forma simples, o jovem casal  levava a vida, tentando ganhar alguns centavos com a vendas de pequenas frutas. 
O Natal chegou e a moça queria muito dar ao marido um presente, depois de tantos natais. Mas não tinha dinheiro. Ao invés de se lamentar, arquitetou um plano: vestiu seu casaco surrado e saiu para a rua. Passou por lojinhas com pouquissimas mercadorias, entrou em um prédio escuro e bateu na porta de uma senhora que, antes da guerra, vendia perucas para mulheres ricas.  Em três tesouradas, seus lindos e longos cabelos caíram no chão. A velha jogou três moedas nas mãos dela, que correu pra uma rua onde sabia que encontraria um homem que vendia correntes para relógios. Ela comprou uma e correu para casa, feliz da vida, certa de que esse seria o mais querido e inesperado presente para o marido.
Este, por sua vez, estava ocupado em procurar também um presente para a jovem esposa. Dinheiro, tinha pouquíssimo, mas já sabia o que seria. Uns pentes, muito simples, mas que nos longos cabelos da moça, seriam o mais belo adorno que ele já teria visto. Desta forma, não teve dúvidas: vendeu o relógio para comprar o presente da amada. E assim foi, comprou e correu para casa.
Ao chegar, a jovem esposa de cabelos muito curtos o esperava. Ao vê-la, o rapaz mal pode esconder a decepção. Ela, já chorosa, perguntava o tempo todo se ele não tinha gostado, mas que não ligasse, porque os cabelos cresceriam, que os havia cortado por uma causa justa, etc, etc.
Foi quando ele, sem poder dizer nada, lhe entregou os pentes. Ela, ao ver que recebera um presente que não lhe teria utilidade alguma, não disse palavra, pegou o pequeno embrulho da corrente do relógio que havia comprado para ele. O marido, ao receber um presente igualmente inútil, contou-lhe da venda do relógio.
E neste momento, foi um misto de choro e riso. Eles se abraçaram, riram e choraram, fazendo promessas mútuas de que o futuro seria melhor. Afinal, tinham um ao outro. E um grande e verdadeiro amor, o que era o suficiente. E aquela foi a mais inesquecível noite de Natal que ambos tiveram.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Que história é essa !!!!

Foi no sábado, na Livraria Cultura do Shopping Bourbon, com festa, música, muita gente, livro e poesia, que a Elaine Gomes lançou o livro dela "Que história é essa". Foram vários momentos de muita emoção, a partir de um poema singelo e profundo de Elaine. Uma vendedora de cataventos brincou com a imagem do vento batendo ora nas pipas do céu, ora nas ondas do mar, nas roupas do varal ou no vestido que a quase fazia voar... a possibilidade de uma linda viagem.


Depois, veio Neusa D`Onofrio com uma belíssima história, fruto do conhecimento de almas e vidas que cercaram a existência daquela menina cujo vestido quase era levantado pelo vento. Conto repleto de imagens e palavras doces e generosas.


Na sequência, o Grupo Malas Portam trouxe a música, a brincadeira, o humor e mais alegria à festa. 
E o encerramento só poderia ficar por conta da Alexandra Pericão que, talentosamente, fez recortes de lindos poemas que, feitos um mosaico, juntaram-se ao poema de Elaine, enquanto o livro Que História é Essa "Aeiouava".    Sim, o livro "Aeiouava". 
Pura magia em uma linda e quente tarde de sábado.  

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Tempo de escolhas



Não me canso desta história. Me toca profundamente. Já li e a contei muitas e muitas vezes. A reflexão é sobre o desafio diário das escolhas. Muitas vezes, elas pesam demais, tornando nossos passos infinitamente difíceis. Por isso adoro essa história de Marina Colasanti, chamada "As Notícias e o Mel". Que maravilhosa escolha a desse rei... E é bom saber que, às vezes, temos condições de fazer opções em nossas vidas. 

As notícias e o Mel

Um dia o rei ficou surdo. Não como uma porta, mas como uma janela de dois batentes.  Ouvia tudo do lado esquerdo. Do lado direito, não ouvia nada. A situação era incômoda, Só atendia aos ministros que sentavam de um lado do trono. Aos outros, nem respondia. E até mesmo de manhã, se o galo cantasse do lado errado, Sua Majestade não acordava e passava o dia inteiro dormindo.
Foi quando mandou chamar o gnomo da floresta. E o gnomo, obediente, apareceu na corte. Veio voando, com suas asinhas. Tão pequeno que, embora todos avisados de sua chegada, quase o confundiram com um inseto qualquer.
Chegou e logo se entendeu com o rei, estabelecendo um trato.  Ficaria morando no ouvido direito e repetiria para dentro – e bem alto – tudo o que ouvisse lá de fora. Tendo asas, e desejando, poderia aproveitar seu parentesco com as abelhas para fabricar no ouvido real alguma cera e um pouco de mel. O trato funcionou às mil maravilhas. Tudo o que o gnomo ouvia, repetia em voz bem alta nas cavernas da orelha, e o eco e a voz do gnomo chegavam até o rei, que passou a entender como antigamente, de lado a lado.
Correu o tempo. Rei e gnomo, assim tão vizinhos, foram ficando cada dia mais íntimos. Um já sabia tudo do outro e era com prazer que o gnomo gritava e era com prazer que o rei ouvia o zumbidinho das asas atarefadas no fabrico da cera e do mel. Uma certa doçura começou a espalhar-se do ouvido real para a cabeça e o rei foi ficando, aos poucos, mais bondoso.
Foi essa a causa da primeira mentira.
O Primeiro Ministro deu uma má notícia no ouvido esquerdo e o gnomo, não querendo entristecer o rei, transmitiu uma boa notícia no ouvido direito.
Foi essa a primeira vez que o rei ouviu duas notícias ao mesmo tempo. Foi essa a primeira vez que o rei escolheu a notícia melhor ...
Houve outras depois.
Sempre que alguma coisa ruim era dita ao rei, o gnomo a transformava em alguma coisa boa. E sempre que o rei ouvia duas notícias, escolhia a melhor delas.
Aos poucos, o rei foi deixando de prestar atenção naquilo que lhe chegava do lado esquerdo, E até mesmo de manhã, se o galo cantasse desse lado e o gnomo não repetisse o canto do galo, Sua Majestade esquecia-se de ouvir e continuava dormindo tranqüilo até ser despertado pelo chamado do amigo.
De um lado o mel escorria. Do outro, chegavam as preocupações, as tristezas, e todos os ventos maus pareciam soprar à esquerda de sua cabeça.
Mas o rei tinha provado o mel e a doçura era agora mais importante do que qualquer notícia. Entregou o trono e a coroa para o Primeiro Ministro. Depois chamou o gnomo para junto da boca e murmurou-lhe baixinho a ordem.
Obediente, o gnomo voou para o lado esquerdo e, aproveitando seu parentesco com as abelhas, fabricou algum mel e abundante cera, com a qual tapou para sempre o ouvido do rei.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O AMOR DE PEPÊ

Minha amiga Elaine Gomes me pediu uma história há algum tempo. “Tem que ser algo lúdico e sensível”, disse ela. E quando Elaine diz, eu faço com prazer. A história tinha um motivo. Era para uma formatura, festa bonita prá se comemorar os novos profissionais - podólogos.  E aí nasceu a doce história abaixo.


O amor de Pepê
Pepê estava muito triste. Mas tão triste que ele até chegou a conversar sobre sua tristeza com o Pépe, seu irmão. É que Pépe e Pepê eram irmãos gêmeos, daqueles bem parecidos mesmo. Tão parecidos que só dava para perceber uma pequena diferença entre eles quando um olhava para a direita e o outro para a esquerda.
O Pépe logo sacou qual era o problema do Pepê: era mal de amor. Ah... era verdade. O Pepê estava loucamente apaixonado pela moça mais linda do mundo. Ela era tão delicada, parecia até que flutuava no ar... Cheirosa e sempre enfeitada – cada dia com um anel diferente.
O problema é que ela ficava muito, muito longe do Pepê, parecia até que morava no céu, de tão alta e longe que ficava. E o pior,  ela sequer olhava para o Pepê.
E o Pépe, mais ousado, achava que o irmão tinha que tomar uma atitude para chamar a atenção da moça. Ele tinha que dar um jeito para que ela soubesse do amor dele por ela. Por isso, eles traçaram diversos planos, mas nenhum deles deu muito certo. O Pepê chegou até a inventar um rio – fundo e bem gelado – para todo mundo morrer afogado ou de frio – menos ele e a moça, já que o rio tinha sido inventado por ele para ela.  Não que ele quisesse matar todo mundo, só o que ele queria, na verdade, era poder ficar sozinho com ela, mostrar o quanto ele gostava dela.
Mas por alguma razão esse plano, assim como os outros, também não deu certo. E o coraçãozinho do Pepê começou a esmorecer, a sofrer.  Sabe aquela dor de amor não correspondido? Pois é, ele foi adoecendo, adoecendo. E o pior, sabe como são gêmeos, né?  O Pépe começou a sofrer e adoecer também.
E aí, parecia que o mundo ia ficando cada vez mais difícil. Nada mais andava como deveria andar. Pépe e Pepê foram ficando muito mal.
Até que um dia, alguma coisa mudou. Era como se o mundo prestasse atenção neles.  Era como se eles ao pudessem ficar doentes, porque muita coisa dependia deles. Foi numa noite, em que Pepê estava se sentindo muito doente, que aconteceu. Ele acordou com... carinho. Era como se alguém estivesse massageando seu peito... E quando ele conseguiu acordar direito para ver o que é que estava lhe provocando essa sensação tão boa, ele a viu.
Era ela, mais linda que nunca, fazendo massagem em seu peito, como que pedindo para ele ficar bem. E, naquele momento de tamanha delicadeza, ele percebeu que a moça bonita também gostava dele. E sentiu-se a mais feliz das criaturas. Olhou para o lado, procurando o irmão e teve uma surpresa. Havia outra moça tão parecida quanto o seu grande amor ali, junto. Era outra irmã, gêmea e tão linda quanto a moça que ele amava. Pépe, muito danado, sorria satisfeito, enquanto dava uma piscadela para o irmão apaixonado. Irmãos gêmeos, irmãs gêmeas.  Tem coisa melhor que isso?
A partir daquele dia, ninguém mais os separou. Pépe e Pepê, pés esquerdo e direito, casaram-se com as duas lindas mãos que os massageava todas as noites. Quanto a Pepê, o pé apaixonado? Ah, o coraçãozinho que batia dentro do peito daquele pé seguiu a vida cheio de amor. 

domingo, 13 de novembro de 2011

O Joelho Juvenal

Lembro-me de minhas filhas pequenas, quando conhecemos O Joelho Juvenal, de Ziraldo. Elas adoravam esse livro que, vira e mexe, eu lia, que lia, sem precisar falar que todos nós temos o nosso Juvenal escondido, por obra da vida que insiste em correr. Hoje, pensei em quantos anos se passaram desde aquele tempo maravilhoso... Com saudades, posto aqui a história, que sem querer caiu novamente em minhas mãos.

O joelho Juvenal

Era uma vez um joelho que se chamava Juvenal.
Juvenal tinha um problema, coitado: vivia todo escalavrado. Também, quem mandou Juvenal ser joelho de um menino levado?
Juvenal queria muito aprender língua de menino só pra falar assim: “Menino, tem dó de mim!” Mas, quando o esfolado sarava, Juvenal bem que gostava de correr e de saltar.
E ele se desdobrava e se dobrava outra vez todo alegre, pois sabia que, indo e vindo, fazia o seu menino feliz. E ficava muito atento conversando com o pé (pois joelho e pé se falam): “cuidado aí, companheiro ! Pode ser que no meio do caminho tenha uma pedra... e aí, você tropeça e quem vai sofrer sou eu.
Mas não adiantava nda! O pé sempre tropeçava e lá ia o Juvenal outra vez pra enfermaria.
O Juvenal era muito religioso! Mas tinha um pequeno problema com a Semana Santa (que vinha logo depois das férias). Imaginem o Juvenal em que estado ele ficava quando as férias acabavam. Aí, vinha a Semana Santa e o Juvenal, coitado, todo cheio de esfolados, tendo tanto prá rezar.
Mesmo assim, o Juvenal gostava muito da vida. Do vento ventando nele, quando o menino corria, todo feliz, pelo mundo.
E Juvenal adorava quando a água lhe batia até onde ele se achava para ver se a água dava pé. Assim como o pé e a canela, ele também pensava: é o fino ser um mergulhador submarino”.
Um dia, tudo ficou escuro para o Juvenal. E aí, ele descobriu que o menino tinha crescido. E agora, em vez de short, calção ou calça curta, usava calça comprida. Por isso, hoje, Juvenal, tem um pedido a fazer aos fabricantes de calças: que tal criar um modelo de calça, sob medida, que tenha dois buraquinhos, pro Juvenal ver a vida !?

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS: ERA UMA VEZ!

NÃO PERCA ESTE TREM QUE SAI AGORA ÀS 11HORAS
Hoje é 11/11/2011. Valendo-se dessa data única em um século, a Biblioteca Belmonte agrega, pela quarta vez , contadores de histórias para uma maratona de contação para os mais variados públicos, em diferentes espaços. A proposta proporciona o bem estar e a incursão ao imaginário, que só uma narração ao vivo consegue!
Serão histórias lidas, cantadas, narradas e declamadas. Lendas,  fábulas, parábolas, contos de fadas, adágios, cordel, contos tradicionais e outros gêneros estarão no repertório de contadores, arte educadores, professores, estudantes de pedagogia,de letras, bibliotecários, recreacionistas, cordelistas, poetas, mediadores de leitura.
   Hoje, nove estados brasileiros integram a maratona. As histórias serão contadas em bibliotecas, CEIs (Centro de Educação infantil), EMEIs (Escolas Municipais de Educação Infantil, EMEF (Escolas municipais de Educação Fundamental) Escolas estaduais, municipais e particulares de ensino médio, universidades, livrarias, sítios, igrejas, ONGs, Centros Sociais de Juventude, lares, casas de cultura, asilos, orfanatos, hospitais, empresas, teatros, subprefeituras e Centros  de Detenção. 
  O cronograma e roteiro das contações estarão disponíveis na Biblioteca Belmonte, no email: bmbelmonteculturapopular@yahoo.com.br ou asasousa@uol.com.br.  blog http://bibliotecabelmonte2011.blogspot.com . telefones  (011)  5687 04 08   5691 0433 com Andréa ou Dorinha, (011) 9442 01 97 (TIM)  6611 2472 (CLARO) com Antonia Andréa.
 CONTE HISTÓRIAS, NEM QUE SEJA UMA! para seus colegas, familiares, amores, amigos, líder, liderados,clientes, vizinhos, alunos, pacientes, Enfim, a meta é contabilizarmos 1111 histórias no dia 11 do 11 do 11, das 11 às 11h. O slogan é NÃO PERCA ESTE TREM QUE SAI AGORA ÀS 11Hs, senão só no dia 11 do 11 de 3011 

sábado, 5 de novembro de 2011

Aprendendo a voar



Meu amigo João Luiz do Couto, com toda a sua alegria, lançou mais um livro na semana passada. Linda e delicada história, que reproduzo abaixo.

Pitico, o menino que aprendeu a voar

Era uma vez um menino que morava em uma cidade cercada por um grande muro.
O quinto filho de uma família humilde. Por ser um menino franzino e mirrado, era chamado carinhosamente de Pitico. Sua casa ficava próxima à muralha que cercava a cidade.
Todas as tardes, quando chegava da escola, Pitico ia para o quintal brincar; sentava à sombra da figueira, de frente pra o paredão do muro e ficava imaginando como seria do outro lado... O muro era tão alto que poucas pessoas sabiam o que havia lá. E Pitico sonhava um dia descobrir o que havia ali atrás. Pitico ouviu dizer que os livros davam asas às crianças. Mas ele não tinha livros, nem dinheiro para comprar. Decidido, começou a perguntar aos vizinhos como faria para encontrar livros. Até que u, dia, um senhor de cabelos brancos e barba comprida disse que, próximo à praça, no centro da cidade, tinha uma biblioteca. E que lá  Pitico poderia encontrar muitos livros, e não precisar pagar para lê-los.
Pitico foi até a biblioteca e ficou encantado com a quantidade de livros que viu. Eram muitos. Retirou o primeiro e leu ali mesmo; no caminho de volta para casa passou por uma pedreira, quando decidiu pegar uma pedra e levar consigo. Chegou em casa, foi até o quintal, colocou-a ao pé do muro, subiu na pedra para ver o outro lado. Mas apenas uma pedrinha não ajudou muito.
Todos os dias, ao voltar da escola, Pitico passava na biblioteca e retirava um novo livro. E, para cada livro que lia, recolhia uma pedra e colocava ao é do muro do seu quintal.
Quando ele chegava da escola, o Sol já estava se pondo e a sombra do muro anoitecia o quintal. O menino começou a perceber que, a cada nova pedra que colocava e subia, o Sol demorava mais para se por...
Após muitos dias, muitos livros e muitas histórias, Pitico chegou com uma enorme pedra – havia lido um grande livro. Com dificuldade, escalou a pilha de pedras e colocou a pesada pedra no cume.
Lentamente levantou a cabeça e, finalmente, visualizou por cima do muro. Seu rosto foi se iluminando, os olhos brilharam, uma leve brisa acariciou seus cabelos.
O menino sorriu. Quando Pitico chegou em casa, o Sol estava se pondo. Porém, olhando lá de cima de sua montanha, o Sol ainda estava alto, iluminando a tarde. O horizonte azul do céu beijava a terra, muito distante. Os pássaros revoavam o vale florido, que se estendia até às margens do rio. O rio, com suas águas deslizando lentamente, banhava as raízes das árvores do bosque.
Encantado com o que viu, Pitico ficou de pé sobre o muro, abriu os braços e... “voou”. “Revoou” sobre as árvores, sobre a planície, deu um rasante sobre o rio e voltou para casa.
Naquela noite, o menino dormiu mais feliz. E sonhou muito. Sonhou que voava sobre a cidade. Lá do alto, ela via as pessoas caminhando nas ruas, nas praças, via as crianças brincarem nos quintais. Lá de cima, as pessoas eram tão pequenas, pareciam formigas. O mais incrível é que as formigas estavam tão grandes quanto os homens.
Quando acordou, Pitico continuou sonhando. Voando, sonhando e voando...
Coisas de menino...

domingo, 30 de outubro de 2011

Pé de Estrela

Exercício maravilhoso e provocativo do Giuliano. Resultado sempre gratificante. Terminei de escrever e pedi para a Márys Brambilla ler. E, quando ela terminou de ler, Giuliano sorriu e quase decretou "este vai pro blog". Vai, vai sim. Aqui está:


Pé de estrela ! 
Quem plantou ?
Havia ventado tanto, que as emoções foram todas levadas junto com o vento. Emoções, segredos e histórias - aquelas contadas e não contadas. Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos. Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou. E você sabe, né, vapor que sobe para o céu,  tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva,  tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Almodóvar


Almodóvar nasceu para ser príncipe. Mesmo ainda criança, já demonstrava o quanto seria robusto e musculoso. Tinha olhos azuis penetrantes, não este azul de um dia claro de muito Sol. Mas um azul do fim do entardecer, quase marinho como a noite. Alegre e brincalhão, Almodóvar crescia para viver o seu quinhão de felicidade, o que deve ser básico para quem, afinal, nasceu.
Mas ao príncipe estava reservada uma parte da história que acontece em muitos casos principescos, não que seja boa, mas que acontece: Almodóvar foi ferozmente atacado. Não por um dragão cuspidor de fogo ou um exército inimigo fortemente armado, como acontece em grandes aventuras. Não, Almodóvar foi covardemente agredido por um inimigo inexplicavelmente estranho, desses que só fazem maldade por fazer, sem muita explicação.
Almodóvar, criança que era, ficou muito machucado, até queimado. Príncipe que era, foi jogado em um calabouço, onde lutou pela vida, resistindo ao máximo a fome, frio e às dores. Algum tempo se passou, até que surgiu mais um acontecimento digno de histórias de príncipes – e desta vez bom: Almodóvar foi salvo por uma fada madrinha. Dessas fadas decididas, que sabem o que estão fazendo. A fada cuidou do principezinho, que foi logo adotado pelos mais generosos reis daquele reino.
O principezinho cresceu amado, belo e saudável. E mais tarde, como é de se supor em contos de fadas, de príncipes, reis e rainhas, Almodóvar casou-se com uma linda princesa, chamada Valentina, que, como ele, também tinha sido ferozmente atacada por esse mesmo inimigo estranho, que sem explicações, machuca inocentes criaturas.

O gato Almodóvar, que foi preso em um bueiro, teve seu bigode arrancado e seu nariz queimado, casou-se com a gatinha Valentina, que também havia sido presa, jogada no lixo, tivera seu rabo quebrado e sua patinha arrancada. Apesar de tanta violência, eles foram salvos. E, criados por reis e rainhas de um reino bom, foram felizes para sempre. Ah, eles tinham a mesma fada madrinha !

domingo, 23 de outubro de 2011

Uma doce experiência

Seu soninho, cadê você?
Os animais acabaram de almoçar e estão prontos para tirar a soneca da tarde. Todos menos Jacó, um jacarezinho que não pára quieto. Até parece que ele sentou no formigueiro, mas o caso é outro: Jacó acha que seu Soninho esqueceu dele, e resolve ir procurá-lo. Acontece que ele sai aos berros, pela floresta afora, e impede seus amigos, um por um, de dormir.
Até que os bichos entendem a dificuldade pela qual está passando Jacó, e lhe explicam que para dormir não é preciso gritar pelo sono. Eles então cantam uma canção de ninar, que faz Jacó adormecer rapidinho. 


   Esta é a sinopse da história que contei num sábado desses no Hospital Infantil Sabará, onde sou voluntária. É sempre uma experiência gratificante e absolutamente enriquecedora contar histórias para crianças em hospital. Eu poderia falar longamente sobre isso aqui, mas gostaria de contar uma única experiência.
    Entrei com esse livro, junto com minha amiga Elaine, minha treinadora da Associação Viva e Deixe Viver, no quarto de um lindo menino, que aparentemente tinha uma doença grave. O nome dele, da avó ou da doença não vem ao caso aqui. Mas o fato é que ele parecia ter muita dor. A avó, com aquele coração enorme que só as avós têm, e com aquela vontade de fazer qualquer coisa para que o seu bebê parasse de sentir dor, correu para ele e disse sorrindo, certa de que poderíamos trazer alguma espécie de bálsamo para aquele momento: "veja querido, elas são contadoras de histórias, vamos ouvir, vai ser bom".
    O menininho abriu os olhinhos e concordou. Mal conseguiu sorrir mas acenou com a cabeça. Senti que talvez ele preferisse dormir, mas acredito também que a avó tenha dito duas expressões mágicas que devem ter chamado a atenção dele naquele momento "contar histórias" e "vai ser bom". Então, percebi que ele não conseguiria abrir os olhos e o livro "Seu soninho, cadê você", seria a melhor opção naquele momento. Cheguei perto dele e disse bem baixinho que iríamos buscar o seu soninho para ele - juro que eu torci para que ele dormisse mesmo, para parar de doer...
    Abri o livro e comecei a contar bem baixinho, quase sussurrando, em pé mesmo, do ladinho dele. Então, a avó carinhosamente trouxe uma cadeira ali onde eu estava para que eu me  sentasse. Sorri para ela e sentei, fiquei então com meu rosto mais perto do rostinho daquela criança que deveria ter talvez cinco ou seis anos.  Com a proximidade, o menininho abriu os olhos e eu me animei ainda mais para, mesmo contando bem baixinho, mostrar as páginas coloridas e interativas do livro.
    Qual não foi nossa surpresa quando, depois de umas três páginas, ele sorriu e disse "olha o macaco na árvore". Sorrimos nós três - ele tinha saído daquela terrível sensação de dor e entrado na história - sorriu e viu o macaco na árvore. Então, cheguei no pedaço da história em que a floresta inteira canta para Jacó, o pequeno jacaré que vivia a angústia de procurar seu soninho. Comecei a cantar a musiquinha do livro, como uma cantiga de ninar, bem baixinho e suavemente. Então a avó e minha amiga Elaine começaram a cantar junto comigo, cada qual ainda mais suavemente... Éramos nós três juntas, na angústia de tentar apaziguar a dor do menino pela cantiga de ninar, pela história. "...nana, Jacó, é hora de descansar..." O momento foi mágico.
    Ao final, o menino sorriu e fechou os olhinhos. Não consegui dizer nada nem para ele e nem para a avó. Não precisava, o que tínhamos que fazer havíamos feito. E com o maior amor do mundo. Jamais me esquecerei dessa experiência. Vou me lembrar do rostinho do menino e do sorriso da avó para sempre. Que bom que tive essa oportunidade. Naquele sábado chuvoso, o Sol entrou para mim, ali, naquele quarto.





segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mais prá lá do Quipracá !

Contar histórias no Centro Cultural São Paulo no Dia das Crianças foi um presente! Um projeto iniciado em março deste ano, que vingou da maneira mais gostosa, divertida e criativa que todos nós poderíamos esperar. Tudo começou quando eu, Rosita Flores e Fábio Lisboa estávamos juntos lá no CCSP e Valéria Zanchita, do setor de Bibliotecas, nos pediu um projeto. Citou também o nome da contdora Maria Cecília Ferri, que nós fomos rapidamente buscar. E aí, depois de meses, apresentamos um trabalho maravilhoso que durou o dia todo. Não é falta de modéstia não, foi muito, muito bom. Ainda estamos na fase de juntar todas as fotos e mostrar a alegria daquele dia. Isso quer dizer que ainda vou postar mais fotos aqui. Mas acho que é preciso dar um prévia.

De nossa parte, a contadora Alexandra Pericão, a musicista Tamara, e eu, trabalhamos muito em um texto muito divertido, da Flávia Muniz, chamado Mais prá lá que Quipracá. Adaptamos também muitas poesias para as crianças, pequenos poemas, lindos, lúdicos, de rimas divertidas e inteligentes. Tudo isso somado a muita música e brincadeiras. O resultado não poderia ser melhor !

domingo, 16 de outubro de 2011

Proteção

Adoro essa história que  trata da maneira como mulheres de um reino encontraram para acabar com as guerras declaradas por seu insano rei.  Atos suaves, generosos até, porém extremamente corajosos, decididos e certeiros. A meu ver, como devemos levar a vida. Só poderia ser de Marina Colasanti.

Naquela cidade

Era só o Sol lançar o seu primeiro raio por cima dos muros e abriam-se as portas daquela cidade, deixando sair homens armados.  Apenas um punhado de cada vez, sem couraça ou elmo, e a pé. Mas comandados pó cavaleiros reluzentes e suficientes para tomar um castelo, conquistar uma terra. Nenhum deles estava de volta à tardinha,  quando as portas eram fechadas. Outros partiriam na manhã seguinte.

Assim é que os homens daquela cidade nunca sabiam se terminariam seu serviço: o carpinteiro  talvez deixasse o seu lenho por aplainar, se os homens do rei viesse buscá-lo, trocando sua plaina por uma espada. Talvez queimasse o pão no forno daquela cidade, se requisitassem o padeiro, roçando-lhe seu avental pelo escudo. A jarra era abandonada no torno, o tecido esquecido no tear,  e as mós do moinho rodavam, rodavam, sem que nenhum grão lhes caíssem entre os dentes, enquanto o oleiro, o tecelão, o moleiro saíam pela grande porta, marchando no mesmo passo.

Mas o rei, ah! O rei nunca parava de assinar. Com sua pena de ganso, seu sinete de ouro, assinava e lacrava declarações de guerra, alianças, tratados, sem que jamais alguém viesse interrompê-lo.

Então foi primavera. E, se alguém naquela cidade tivesse prestado atenção, teria percebido entre o primeiro cantar dos pássaros e o vibrar das folhas novas um ruído diferente, um farfalhar ligeiro, roçar de escama ou pano sobre as pedras do chão. E se, tendo prestado atenção, alguém se debruçasse na janela à noite, veria talvez na densa sombra dos cantos, nos negros poços cavados pela lua, o vulto esquivo de uma mulher, a silhueta de outra, e mais uma, escorrendo suas longas saias , esgueirando seus véus, negro sobre o negro avançando na escuridão.  Não iam longe as mulheres, não faziam grande coisa. Na mão branca, sob as vestes, cada uma trazia um graveto, um só. Que depositava aos pés do palácio do rei. Noite após noite, as mulheres daquela cidade, como pássaras, depositavam o seu raminho. E porque era primavera, aconteceu que um ramo ou outro estivesse florido.  A princípio, os servos do rei varreram os raminhos. Depois, vendo que as flores amanheciam frescas no orvalho, e tomados eles mesmos por um certo encantamento primaveril, consideravam aquilo com uma homenagem e deixaram que acumulassem, enfeitando os muros cinzentos. Um ramo entrelaçando a outro crescia lentamente ao redor do palácio o enorme ninho.

Quentes faziam-se as noites com o chegar do verão. A primeira chama, tão pequena, nem pareceu esquentar mais o ar. É provável que ninguém sequer a tivesse visto, levada ligeira pela Mao branca. Uma pequena chama não faz barulho. Nem duas. A segunda veio do outro lado da cidade, e que a viu certamente a confundiu com um vagalume. Se alguém percebeu a terceira, ninguém sabe. No liso veludo da noite, uma vela aqui, um centelha acolá, uma tocha lá longe... vieram chegando, procurando aconchego no ninho. Uma chama pequena não faz barulho, nem duas. Talvez somente um leve estalo, rascar seco de quem lambe com língua áspera. Mas, um estalo aqui, outro acolá, de repente um ronco medonho ergueu-se do ninho, como se em seu miolo acordasse incontida fera.  E roncando, gemendo e retorcendo-se no ar, a imensa labareda subiu pelos muros, entrou pelas janelas, abocanhou as cortinas, abraçou todo o palácio.
Arderam os pergaminhos do rei, o calor secou seus tinteiros. A pena de gancho voltejou por um instante antes de se desfazer em centelhas. O ouro do sinete escorreu em gotas pela mesa. No palácio, em chamas, o rei tentava em vão apagar o incêndio com seu cetro, e já o fogo lhe beijava as vestes.

Lá longe, seu campo recém conquistado, os homens deitados entre as hastes de cevada voram o horizone clarear. Mas era do lado do palácio, do lado do poente, e ainda faltava muito para o amanhecer. Então souberam que não haveria outra batalha no dia seguinte. E nem foi preciso esperar o sol para encontrar o caminho de volta.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ubuntu

A jornalista e filósofa Lia Diskin, em um Festival Mundial da Paz, presenteou a todos com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria tentat catequizar os membros da tribo; então, propôs uma brincadeira pras crianças, que achou ser inofensiva. 
Comprou então uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto, e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces.
Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?”
Ele ficou desconcertado! Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade,a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós!”

sábado, 8 de outubro de 2011

A lua e muito mais no Centro Cultural São Paulo



A lua pinta a rua de prata
E, na mata, a lua parece
um biscoito de nata.
Quem será que esqueceu a lua acesa no céu?


Esta linda poesia faz parte da história que vamos contar na próxima quarta-feira, no Centro Cultural São Paulo, em homenagem ao Dia das Crianças. É um repertório que inclui história, música, poesia, brincadeiras e muito mais. As contadoras são Vanessa Meriqui, Alexandra Pericão e Tamara. Esperamos que todos gostem, porque nós estamos nos divertindo muito na preparação do trabalho. Será às 13h. Apareça lá !

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O comprador de sonhos

Minha amiga Antonia Andrea, contadora não só de mão cheia, mas de muitas línguas e trava-linguas cheias, me pediu essa história. Trata-se de um conto popular mexicano dos mais maravilhosos, que eu adoro contar. Sensível, generosa e bela. Assim é esta história, quero compartilhar. Aqui vai.

O Comprador de Sonhos

Durante três anos ele cuidou das árvores e colheu seus frutos... mas não era feliz... tinha saudades de sua “sierra.”   Para enfrentar seu destino sonhava com o dia em que finalmente voltaria levando consigo uma mala enorme cheia de presentes...e todos gritariam: “ele voltou...ele voltou...” E todos estariam muito felizes. Ele tinha tanta vontade de ser feliz!
Ao final de três longos anos, ele decidiu que era hora de voltar. Recebeu seu salário. Não compreendia muito bem as contas que o capataz fazia... “_Por três anos de trabalho receberá... aluguel e comida a descontar...perda de uma machadinha a descontar... por sua negligencia, dez árvores produziram menos...a descontar...eis, então, seu ganho: três moedas de cobre. O próximo!”   O índio se afastou lentamente... em sua mão apenas três moedinhas de cobre. Era tudo!

À noitinha chegou à pequena cidade mais próxima. Era alegre, movimentada...as pessoas pareciam felizes. As lojas cheias de coisas maravilhosas...mas caras. Porém, ao passar por uma vitrine de uma loja de doces, ficou deslumbrado. Havia flores, de todas as cores, de açúcar impressionantemente lindas. Uma moeda de cobre...que custava cada uma. Comprou uma charmosa rosa vermelha para presentear Panchita a índia mais linda da aldeia. Agora, com apenas duas moedas comeria pouco, e pronto!

Pouco a pouco a cidade foi adormecendo...estava cansado e sentia muita fome, mas preferiu deixar para comer no dia seguinte antes de se colocar a caminho de casa.
 Foi até a uma fonte pública e bebeu muita água para distrair o estômago... já satisfeito percebeu um homem quase sem forças com uma tigela na mão tentando pegar água. Parecia muito doente. Então, o índio pega a tigela e ajuda o homem a beber a água, como se fosse uma criança...O homem estava tão fraco que era incapaz de segurar a própria tigela e o índio sabia bem do que é que ele sofria...

O índio, então correu até um vendedor de tortilhas e pediu uma porção bem farta e pagou com uma moeda de broze... ofereceu a tortilha ao homem que comeu lentamente apreciando cada mordida.
 O homem, então agradeceu e ofereceu um presente, um pequeno saco:__É para você...A felicidade, talvez...mas eu não sei.Eram sementes redondas e amarelas, da cor do ouro. O índio aceitou e foi embora a procura de um lugar para dormir.Já amanhecerá na porta de um albergue. De dentro vinha um delicioso cheiro de tortilhas. O índio entrou e pediu uma para matar sua fome antes de seguir viagem...

Enquanto esperava, um homem descia pelas escadas e disse:
__Chica, traga-me rápido a comida e eu lhe contarei um belo sonho...
 __Sonhei que uma deusa de cabelos longos e negros com a noite...era minha esposa. Nós morávamos bem no meio de uma floresta de ouro... aquele que colhesse um galho de ouro na floresta estaria livre da fome. Neste lugar todos eram felizes e vinham à nossa floresta e colhiam braçadas de galhos de ouro e partilhavam uns com os outros toda essa riqueza e felicidade. E eu olhava toda aquela gente e me sentia ainda mais feliz... Não é belo o meu sonho?
 O índio ficou impressionado e pensou: “este homem parece ter sorte e tem tudo o que quer, não precisa de um sonho para ser feliz. Se eu gastar minha última moeda com comida, amanhã ainda terei fome. Mas, se eu comprar esse sonho, serei feliz amanhã, e depois, e depois...”
 Então, aproximou-se do homem e disse:
 __Quero comprar o seu sonho.O homem ficou assustado e começou a rir.
 __O que? Você quer comprar o meu sonho? Mas para que ele poderá lhe servir?
 __Ele me servirá para me fazer feliz. Aqui está o dinheiro.O índio colocou sua última moeda sobre a mesa; o homem não podia acreditar.
 __Uma moeda? É pouco, mas ainda é muito para pagar um sonho. Guarde seu dinheiro eu lhe dou o sonho.
 __Não estou mendigando, Quero comprar o seu sonho.
 Vendo que o índio falava com seriedade e convicção, vendeu-lhe o sonho por uma moeda de cobre.
 

O índio saiu do albergue feliz por ter comprado um bonito sonho e já pegava o caminho quando Chica veio correndo ao seu encontro.
 __Você vai para “Sierra”? Eu queria que passasse por Achulco, a aldeia onde mora minha mãe.
__E o que você quer que eu diga a ela?
__Conte a ela seu sonho. Minha mãe é sozinha e triste. Ela ficará feliz com seu bonito sonho.
 __Mas, eu não sei contar história...
 __Mas é o seu sonho! Quem poderia conta-lo melhor? Ela então, entregou-lhe uma sacola com tortilhas, pão, tomates e pimenta. __Tome! Este é meu presente para sua viagem. 

Ele não pode negar o pedido e logo, à tarde chegou ao vilarejo e procurou pela mulher. Curiosos lhe seguiram até a porta da mãe de Chica, queriam saber das novidades. Logo a sala da casa estava cheia, e a mãe de Chica pediu silêncio: __ Este rapaz teve um sonho magnífico e minha filha o mandou aqui para que me contasse. Cada palavra pronunciada é a palavra da verdade. Chica é testemunha.
Então, ele contou seu sonho e era realmente lindo e encantou a todos do vilarejo.Pela manhã, estava de partida quando um homem veio procurá-lo. __Minha mulher e filhos moram num vilarejo que fica a um dia de caminhada daqui. Se você for passar por lá, poderia contar-lhes seu sonho?

O índio consentiu e o homem decidiu segui-lo par ouvir mais uma vez o seu sonho. E a notícia corria de boca em boca... e por varias vezes se desviou de sua rota par contar seu sonho por encomenda de alguém. Mas fazer o que? Só um louco se recusaria a dar alegria aos outros.

Até que um dia, finalmente chegou em seu vilarejo. Logo na entrada, viu um bela jovem de cabelos longos e negros com a noite, era Panchita. Seu coração palpitou forte e disse:
__Panchita, trouxe-lhe um presente. E lhe entregou a delicada rosa de açúcar vermelha.

Todos estavam felizes com sua volta. E à noite, em torno da fogueira, ele contou seu sonho a todos e mostrou as sementes de ouro que havia ganhado e uma senhora idosa aproximou-se e examinou-as e disse:  __É um grão d’ixium, o milho. Mas esta felicidade não é para nós...jamais brotará em nossas terras áridas.  Mas vamos plantá-las... junto com meu sonho.

E numa bela manhã de outono, o índio correu até os campos e pode ver seu lindo sonho...lá havia uma bela floresta: o milho amadurecera e, de tão bonito, de tão maduro, parecia de ouro. E no meio daquela floresta dourada, Panchita dançava com os cabelos soltos ao vento, cabelos longos e negros como a noite...e, de tão bela, parecia uma deusa!

domingo, 25 de setembro de 2011

Historinha ao contrário

Que bom seria se pudéssemos jogar tudo para o alto e só fazer coisas gostosas.  Pois a história abaixo, do livro “Sete Histórias pra Contar”, de Adriana Falcão, nos dá a chance de sonhar com esse momento.

Historinha ao Contrário

Esta é uma história de pai e mãe.
Por que todo pai, coitado, tem que ter cara de pai, tem que usar roupa de pai, tem que dizer frases de pai, tem que fazer tudo de pai, mesmo que esteja com vontade de raspar a panela de brigadeiro?
E por que mãe tem que ser mãe o dia inteiro sem parar, para lá e para cá, toc, toc, com aqueles sapatos de mãe, mesmo que esteja a fim de dar uma cambalhota?
Ah, não!
Um dia, um pai e uma mãe resolveram fazer tudo ao contrário.
O pai fechou o jornal, a mãe abriu um sorriso e lá se foram os dois, pulando de um pé só, tomar banho de chuva.
Dançaram que nem dois doidos na praça.
Jogaram muitas pedras nas poças.
Cataram 189 conchas na praia, sendo que 52 estavam esburacadas, 27 eram bastante simpáticas, 18 eram bem bonitas e uma era linda de guardar!
Fizeram castelos na areia enquanto argumentavam com as ondas que esse negócio de derrubar castelo dos outros é uma falta de educação bem molhada.
Comeram rosquinhas e estouraram os sacos.
Contaram os carros que passavam: 876, 877, 879 e perderam a conta.
Discordaram do Sol quando ele começou a se esconder do dia. Em seguida, porém, concordaram que azul-escuro pode ser tão bonito quanto azul-celeste, ainda mais quando aparece uma Lua no meio.
Procuraram, em vão, discos voadores e estrelas cadentes. Só viram mesmo uma andorinha, a quem fizeram um pedido, mas era segredo.
Acharam graça de tudo.
Acharam graça de nada.
Perderam a hora.
Voltaram caminhando só pelos desenhos pretos da calçada.
Apostaram corrida até a esquina e ela ganhou (ou talvez ele tenha deixado que ela ganhasse).
Chegaram em casa felizes, suados, sujos e cansados. Para espanto dos três filhos, que estavam esperando na janela e que logo perguntaram: Vocês podem explicar o que aconteceu???
Como eles não sabiam explicar, pediram uma licencinha e foram para a cozinha comer cachorro-quente, com muita mostarda, maionese e ketchup.
Fizeram uma bagunça danada na cozinha e nem limparam ...

sábado, 17 de setembro de 2011

A dor azul

“Há dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu...” Penso que Chico Buarque estava iluminado quando escreveu isso. E, na minha opinião, Adriana Falcão estava igualmente iluminada quando escreveu uma história que fala de uma dorzinha na alma, difícil de explicar. Uma história tão delicada quanto colorida, que conto abaixo:

A Dor Azul

A menina sentia uma dor azul todos os dias, ali pelas cinco horas da tarde. Não era uma dor grandona, de puxar o choro para fora. Era só uma dorzinha. Mas era uma bem azulona.  Achavam que era maluquice. “Dor não tem cor!”

Mas como a dor azul não passava, começaram a achar que ela doía mesmo. Levaram a menina para todos os médicos do mundo, fizeram todos os exames que existiam, e ninguém descobriu o que era aquilo. Procuraram então um psicólogo e, é claro, que ele achou que aquilo era psicológico. A dor azul não queria saber. Ia e vinha. Sempre na mesma hora.

Os anos foram passando e o azul da dor continuava colorindo as tardes da menina. Só as tardes. De manhã, ela sentia uma saudade lilás. E, à noite, um desejo prata que ela não sabia bem de quê. A menina cresceu. E um dia conheceu um rapaz que sentia uma vontade violeta de espirrar nas manhãs nubladas.

Eles se gostaram, um gostar laranja que foi se avermelhando sem parar, até que se casaram, numa noite dourada de alegria, cheia de luzinhas roxas de paixão.
Um ano depois, numa madrugada de cheiros cor-de-rosa, ela teve uma filhinha. E nunca ela tinha sentido um carinho tão verde em toda sua vida.

A filha da menina cresceu, herdou a vontade violeta de espirrar do pai e, da mãe, o desejo prateado.
E a menina, que já era mulher, descobriu que o nome da dor azul, como está do dicionário, é desassossego.
E que esse desassossego queria dizer, mais ou menos, em palavras de adultos “Como será que vai ser a minha vida?”. Puro desassossego...