sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A alma que fala

Tenho pensado muito na minha essência. A cada encontro com nossa matilha descubro e reflito sobre algo tão interno quanto intenso. Tem sido um movimento tão forte dentro de mim, que busquei uma história sobre a essência de cada um de nós para publicar no blog. E, claro, Marina Colasanti novamente me surgiu, com uma das mais belas metáforas que já li.  Chama-se “Entre as folhas do verde O”, nome que aparece em uma canção popular da Idade Média, com a qual Marina abre esta história em seu livro Uma Ideia Toda Azul e que muito provavelmente a inspirou. História de amor, história sobre a transformação necessária para o amor? História sobre a dominação de alguém que pensa que ama ou ainda sobre a verdade daquilo que você escolheu para ser, para sentir? Será de tudo um pouco?  O fato é que a essência é o que fala mais alto, são as palavras de nossa alma. Bem, aqui vai:

Entre as folhas do verde O
O príncipe acordou contente. Era dia de caça. Os cachorros latiam no pátio do castelo. Vestiu o colete de couro, calçou as boas. Os cavalos batiam os cascos debaixo da janela. Apanhou as luvas e desceu. Lá embaixo parecia uma festa. Os arreios e os pelos dos animais brilhavam ao Sol. Brilhavam os dentes abertos em risadas, as armas, as trompas que deram o sinal de partida.
Na floresta também ouviram a trompa e o alarido. Todos souberam que eles vinham. E cada um se escondeu como o pode. Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da tropa, e estava debruçada no regato quando os caçadores chegaram.
Foi assim que o príncipe a viu. Metade mulher, metade corça, bebendo no regato. A mulher tão linda. A corça tão ágil. A mulher queria amar, a corça ele queria matar. Se chegasse perto será que ela fugiria? Mexeu num galho, ela levantou a cabeça ouvindo. Então o príncipe botou a flecha no arco, retesou a corda, atirou bem na pata direita. E quando a corça-mulher dobrou os joelhos tentando arrancar a flecha, ele correu e a segurou, chamando homens e cães.
Levaram a corça para ao castelo. Veio o médico, trataram do ferimento. Puseram a corça num quarto de porta trancada. Todos os dias o príncipe ia visita-la. Só ele tinha a chave. E cada vez se apaixonava mais. Mas a corça-mulher só falava a língua da floresta e o príncipe só sabia ouvir a língua do palácio. Então, ficavam horas se olhando calados, com tanta coisa para dizer.
Ele queria dizer que a amava tanto, que queria casar com ela e tê-la para sempre no castelo, que a cobriria de roupas e joias, que chamaria o melhor feiticeiro do reino para fazê-la virar mulher.
Ela queria dizer que o amava tanto, que queria se casar com ele e leva-lo para a floresta, que lhe ensinaria a gostar dos pássaros e das flores e que pediria à Rainha das Corças para dar-lhe quatro patas ágeis e um belo pelo castanho.
Mas o príncipe tinha a chave da porta. E ela não tinha o segredo da palavra.
Todos os dias se encontravam. Agora se seguravam as mãos. E no dia em que a primeira lágrima rolou nos olhos dela, o príncipe pensou ter entendido e mandou chamar o feiticeiro.
Quando a corça acordou, já não era mais corça. Duas pernas só, e compridas, um corpo branco. Tentou levantar, não conseguiu. O príncipe lhe deu a mão. Vieram as costureiras e a cobriram de roupas. Vieram os joalheiros e a cobriram de joias. Vieram os mestres de dança para ensinar-lhe a andar. Só não tinha a palavra. E o desejo de ser mulher. Sete dias ela levou para aprender sete passos. E na manhã do oitavo dia, quando acordou e viu a porta aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada, cruzou o pátio e correu para a floresta à procura de sua Rainha. O Sol ainda brilhava quando a corça saiu da floresta, só corça, não mais mulher. E se pôs a pastar sob as janelas do palácio.

2 comentários:

marilda andrade do amaral disse...

Uma bela historia Vanessa! Nos faz refletir sobre o nosso papel aqui neste mundo... Quantas vezes somos "empurrados" para mudarmos nossas atitudes, comportamentos...quando, na verdade, não o queremos e que, não nos representa. Adorei!! Bjs

marilda andrade do amaral disse...

Bela história Vanessa!
Nos faz refletir sobre nosso papel aqui nesta vida... O quantas vezes somos "forçados" a mudarmos nosso pensamento, atitudes, quando, na verdade, não o queremos, pois não nos representa!!
Parabéns!!
Bjs