Tenho pensado muito na minha essência. A cada encontro com nossa
matilha descubro e reflito sobre algo tão interno quanto intenso. Tem sido um
movimento tão forte dentro de mim, que busquei uma história sobre a essência de
cada um de nós para publicar no blog. E, claro, Marina Colasanti novamente me
surgiu, com uma das mais belas metáforas que já li. Chama-se “Entre as folhas do verde O”, nome
que aparece em uma canção popular da Idade Média, com a qual Marina abre esta
história em seu livro Uma Ideia Toda Azul e que muito provavelmente a inspirou.
História de amor, história sobre a transformação necessária para o amor?
História sobre a dominação de alguém que pensa que ama ou ainda sobre a verdade
daquilo que você escolheu para ser, para sentir? Será de tudo um pouco? O fato é que a essência é o que fala mais
alto, são as palavras de nossa alma. Bem, aqui vai:
O príncipe acordou
contente. Era dia de caça. Os cachorros latiam no pátio do castelo. Vestiu o
colete de couro, calçou as boas. Os cavalos batiam os cascos debaixo da janela.
Apanhou as luvas e desceu. Lá embaixo parecia uma festa. Os arreios e os pelos
dos animais brilhavam ao Sol. Brilhavam os dentes abertos em risadas, as armas,
as trompas que deram o sinal de partida.
Na floresta também ouviram
a trompa e o alarido. Todos souberam que eles vinham. E cada um se escondeu
como o pode. Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da tropa, e estava debruçada
no regato quando os caçadores chegaram.

Levaram a corça para ao castelo.
Veio o médico, trataram do ferimento. Puseram a corça num quarto de porta
trancada. Todos os dias o príncipe ia visita-la. Só ele tinha a chave. E cada
vez se apaixonava mais. Mas a corça-mulher só falava a língua da floresta e o
príncipe só sabia ouvir a língua do palácio. Então, ficavam horas se olhando
calados, com tanta coisa para dizer.
Ele queria dizer que a
amava tanto, que queria casar com ela e tê-la para sempre no castelo, que a
cobriria de roupas e joias, que chamaria o melhor feiticeiro do reino para
fazê-la virar mulher.
Ela queria dizer que o
amava tanto, que queria se casar com ele e leva-lo para a floresta, que lhe
ensinaria a gostar dos pássaros e das flores e que pediria à Rainha das Corças
para dar-lhe quatro patas ágeis e um belo pelo castanho.
Mas o príncipe tinha a
chave da porta. E ela não tinha o segredo da palavra.
Todos os dias se encontravam.
Agora se seguravam as mãos. E no dia em que a primeira lágrima rolou nos olhos
dela, o príncipe pensou ter entendido e mandou chamar o feiticeiro.
Quando a corça acordou, já
não era mais corça. Duas pernas só, e compridas, um corpo branco. Tentou levantar,
não conseguiu. O príncipe lhe deu a mão. Vieram as costureiras e a cobriram de
roupas. Vieram os joalheiros e a cobriram de joias. Vieram os mestres de dança
para ensinar-lhe a andar. Só não tinha a palavra. E o desejo de ser mulher. Sete dias ela levou para
aprender sete passos. E na manhã do oitavo dia, quando acordou e viu a porta
aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada,
cruzou o pátio e correu para a floresta à procura de sua Rainha. O Sol ainda
brilhava quando a corça saiu da floresta, só corça, não mais mulher. E se pôs a
pastar sob as janelas do palácio.
2 comentários:
Uma bela historia Vanessa! Nos faz refletir sobre o nosso papel aqui neste mundo... Quantas vezes somos "empurrados" para mudarmos nossas atitudes, comportamentos...quando, na verdade, não o queremos e que, não nos representa. Adorei!! Bjs
Bela história Vanessa!
Nos faz refletir sobre nosso papel aqui nesta vida... O quantas vezes somos "forçados" a mudarmos nosso pensamento, atitudes, quando, na verdade, não o queremos, pois não nos representa!!
Parabéns!!
Bjs
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