As palavras de Cora Coralina me encantam, me cativam, me desvendam, me revelam. Para mim, esse é um dos mais sensíveis poemas dessa maravilhosa mulher.
Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau olhado
acocorada ao pé do borralho
olhando para o fogo
Benze mau olhado
Bota feitiço...
Ogum, orixá
Macumba, terreiro
Ogâ, pai de santo.
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho
Seu cheiro gostoso
D´água e sabão
Rodilha de pano
trouxa de roupa
pedra de anil
Sua coroa verde de São Caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira
pimenta e cebola
quitute bem feito
panela de barro
taipa de lenha
cozinha antiga
toda pretinha
Bem cacheada de picumã
Pedra pontuda,
cumbuca de coco
pisando alho e sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo
bem proletária
bem linguaruda
desabusada, sem preconceito,
de casca grossa
de chinelinha
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira
Enxerto de terra,
meio casmurra
Trabalhadeira
Madrugadeira
Analfabeta
De pé no chão
Bem parideira
Bem criadeira
Seus doze filhos
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida
Minha irmãzinha,
tão desprezada,
tão murmurada ...
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim
Na minha vida -
a vida mera das obscuras.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
sexta-feira, 14 de setembro de 2012
Desatando nós
Eles nos incapacitam, muitas vezes sem percebermos. Às vezes, de forma absurdamente dolorosa. E aí, tudo se complica. Desatar nós é preciso, seja como for. E nada melhor do que uma boa história para refletir sobre isso. Aqui vai um maravilhoso conto de Eva Furnari.
Nós
No tempo em que as pessoas nasciam em repolhos e as bicicletas voavam, havia uma cidade chamada Pamonhas. Nesta cidade, havia uma casa amarela, onde morava uma menina chamada Mel. Era uma garota solitária e muito diferente: é que à sua volta viviam muitas borboletas, que a acompanhavam onde ela ia. Justamente por conta disso, as pessoas da cidade tratavam Mel muito mal. Diziam que ela tinha nascido de um repolho repolhudo, de um repolho borboletado, de um repolho mofado. Mel sentia-se muito triste toda vez que falavam isso e corria para casa, a chorar. Isso acontecia todos os dias, era Mel sair na rua, com borboletas em sua volta, que lá vinha "repolhuda, borboletuda...". Mel não aguentava, dizia que não ia chorar, mas sentia-se tão mal, que corria chorando, escondendo-se em casa.
Um belo dia, Mel resolveu mudar de tática e, ao invés de sair correndo, chorando, ficou firme. E voltou para casa como se não estivesse abalada com as risadas às suas costas. Não chorou, mas sentiu seu dedinho do pé repuxar, repuxar muito. Ao chegar em casa, tirou os sapatos e descobriu que seu dedinho tinha dado um.. NÒ. Sim, um nó, e não houve jeito, creme ou massagem que desfizesse aquele nó. O que aconteceu nos dias seguintes foi bem pior: cada vez que saía e, como sempre, ouvia "repolhuda, borboletuda...", corria para casa sem chorar. Mas ao chegar verificava que mais um nó estava feito em seu corpo. Com isso, ela já estava com seis nós, dois nos dedos dos pés, um no dedo da mão, um em cada perna e um no pescoço. Esse era o pior de todos, pois parecia um nó na garganta, destes que nem deixa a gente respirar.
O tempo foi passando e a gozação continuando. Até que um dia, quando chegou em casa, Mel se assustou com um nó na ponta do nariz! Ah não, aquilo já era demais. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou, não dava mais para aguentar. E Mel decidir deixar a cidade de Pamonhas. "Adeus, Pamonhas", disse ela, baixinho. E, disfarçada de geladeira, fugiu discretamente.
Quando o Sol estava alto e Mel longe de casa, ela decidiu largar a geladeira em um ferro velho e continuar seu caminho. Chegou à noitinha ao topo de uma montanha. Tudo era tão lindo e em paz, que Mel sentiu-se feliz. O tempo passou. E Mel, na montanha, sozinha com suas borboletas e nós. Até que um dia uma vaca apareceu no topo da montanha. Mel tentou puxar assunto, mas a vaca não respondeu. Mel então pensou em lhe fazer um carinho. E deu um nozinho em seu rabo. A vaca ficou muito brava e avançou em Mel, que saiu correndo em disparada. Mel correndo e a vaca atrás, Mel correndo e a vaca atrás. Até que, para se livrar, Mel pulou no rio, nadou, nadou e nadou. Ao chegar à outra margem, viu que a vaca não conseguiu atravessar o rio. "ufa, disse ela, que bom que a vaca não sabe nadar".
- "Que vaca?", alguém perguntou. Mel levou um baita susto, olhou e viu um menino ao seu lado. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou e Mel imaginou que ia começar tudo de novo "Repolhuda, borboletuda". Mel quis fugir e não teve dúvidas, pegou a bicicleta do menino e saiu voando. Mas um cisco entrou em seu olhou e ela caiu, bem em cima dele. Envergonhada, ficou no chão, com a cabeça baixa, tentado pedir desculpas. E o garoto, foi muito gentil "você se machucou? Está molhada, precisa secar". Mel ficou quieta. "Puxa, como você é bonita! E que lindas borboletas te acompanham, nunca vi nada tão bonito". Mel foi sentindo uma coisa esquisita na garganta, aquele nó do pescoço repuxando, uma coisa que foi crescendo, crescendo, até que um choro começou de mansinho, de mansinho, depois explodiu, num choro sentido, num choro convulsivo, um choro engasgado daquele de nó na garganta. Pudera, o menino tinha falado com ela como ninguém havia falado... Depois de tanto chorar, Mel tentou olhar para o menino, pedir desculpas, limpou o rosto, desceu a mão pro pescoço e... o nó tinha sumido! Ele sorriu. Mel compreendeu naquele momento que podia desatar seus nós.
E foi assim, desse jeito, que aliviou seu coração. Chorou mais um pouco, desta vez de emoção, não tristeza. Deixou que as lágrimas levassem o cisco embora. Abriu os olhos, o dia parecia mais claro.
"Eu me chamo Kiko, e você?" Mel não respondeu. Estava ocupada reparando em um pequeno detalhe: o menino também tinha um nó, um nozinho no dedo fura-bolo! O garoto percebeu e disse baixinho "eu sei um jeito de tirar nó de nariz..." E a chamou para conhecer a sua cidade.
E chegaram na cidade de Merengue, que ficava do lado oposto da cidade de Pamonhas. Lá, Mel viu com surpresa, que tinha gente de todo tipo. E todos os tipos de nós também. Parecia gente nascida de todos os tipos de repolhos. E todos se respeitavam!
Mel decidiu viver ali. E foi feliz. Um dia, Kiko ensinou a Mel a desatar o nó do nariz. E Mel, agradecida, dividiu com ele suas borboletas!
Nós
No tempo em que as pessoas nasciam em repolhos e as bicicletas voavam, havia uma cidade chamada Pamonhas. Nesta cidade, havia uma casa amarela, onde morava uma menina chamada Mel. Era uma garota solitária e muito diferente: é que à sua volta viviam muitas borboletas, que a acompanhavam onde ela ia. Justamente por conta disso, as pessoas da cidade tratavam Mel muito mal. Diziam que ela tinha nascido de um repolho repolhudo, de um repolho borboletado, de um repolho mofado. Mel sentia-se muito triste toda vez que falavam isso e corria para casa, a chorar. Isso acontecia todos os dias, era Mel sair na rua, com borboletas em sua volta, que lá vinha "repolhuda, borboletuda...". Mel não aguentava, dizia que não ia chorar, mas sentia-se tão mal, que corria chorando, escondendo-se em casa.
Um belo dia, Mel resolveu mudar de tática e, ao invés de sair correndo, chorando, ficou firme. E voltou para casa como se não estivesse abalada com as risadas às suas costas. Não chorou, mas sentiu seu dedinho do pé repuxar, repuxar muito. Ao chegar em casa, tirou os sapatos e descobriu que seu dedinho tinha dado um.. NÒ. Sim, um nó, e não houve jeito, creme ou massagem que desfizesse aquele nó. O que aconteceu nos dias seguintes foi bem pior: cada vez que saía e, como sempre, ouvia "repolhuda, borboletuda...", corria para casa sem chorar. Mas ao chegar verificava que mais um nó estava feito em seu corpo. Com isso, ela já estava com seis nós, dois nos dedos dos pés, um no dedo da mão, um em cada perna e um no pescoço. Esse era o pior de todos, pois parecia um nó na garganta, destes que nem deixa a gente respirar.
O tempo foi passando e a gozação continuando. Até que um dia, quando chegou em casa, Mel se assustou com um nó na ponta do nariz! Ah não, aquilo já era demais. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou, não dava mais para aguentar. E Mel decidir deixar a cidade de Pamonhas. "Adeus, Pamonhas", disse ela, baixinho. E, disfarçada de geladeira, fugiu discretamente.
Quando o Sol estava alto e Mel longe de casa, ela decidiu largar a geladeira em um ferro velho e continuar seu caminho. Chegou à noitinha ao topo de uma montanha. Tudo era tão lindo e em paz, que Mel sentiu-se feliz. O tempo passou. E Mel, na montanha, sozinha com suas borboletas e nós. Até que um dia uma vaca apareceu no topo da montanha. Mel tentou puxar assunto, mas a vaca não respondeu. Mel então pensou em lhe fazer um carinho. E deu um nozinho em seu rabo. A vaca ficou muito brava e avançou em Mel, que saiu correndo em disparada. Mel correndo e a vaca atrás, Mel correndo e a vaca atrás. Até que, para se livrar, Mel pulou no rio, nadou, nadou e nadou. Ao chegar à outra margem, viu que a vaca não conseguiu atravessar o rio. "ufa, disse ela, que bom que a vaca não sabe nadar".
- "Que vaca?", alguém perguntou. Mel levou um baita susto, olhou e viu um menino ao seu lado. A cabeça zuniu, o estômago embrulhou e Mel imaginou que ia começar tudo de novo "Repolhuda, borboletuda". Mel quis fugir e não teve dúvidas, pegou a bicicleta do menino e saiu voando. Mas um cisco entrou em seu olhou e ela caiu, bem em cima dele. Envergonhada, ficou no chão, com a cabeça baixa, tentado pedir desculpas. E o garoto, foi muito gentil "você se machucou? Está molhada, precisa secar". Mel ficou quieta. "Puxa, como você é bonita! E que lindas borboletas te acompanham, nunca vi nada tão bonito". Mel foi sentindo uma coisa esquisita na garganta, aquele nó do pescoço repuxando, uma coisa que foi crescendo, crescendo, até que um choro começou de mansinho, de mansinho, depois explodiu, num choro sentido, num choro convulsivo, um choro engasgado daquele de nó na garganta. Pudera, o menino tinha falado com ela como ninguém havia falado... Depois de tanto chorar, Mel tentou olhar para o menino, pedir desculpas, limpou o rosto, desceu a mão pro pescoço e... o nó tinha sumido! Ele sorriu. Mel compreendeu naquele momento que podia desatar seus nós.
E foi assim, desse jeito, que aliviou seu coração. Chorou mais um pouco, desta vez de emoção, não tristeza. Deixou que as lágrimas levassem o cisco embora. Abriu os olhos, o dia parecia mais claro.
"Eu me chamo Kiko, e você?" Mel não respondeu. Estava ocupada reparando em um pequeno detalhe: o menino também tinha um nó, um nozinho no dedo fura-bolo! O garoto percebeu e disse baixinho "eu sei um jeito de tirar nó de nariz..." E a chamou para conhecer a sua cidade.
E chegaram na cidade de Merengue, que ficava do lado oposto da cidade de Pamonhas. Lá, Mel viu com surpresa, que tinha gente de todo tipo. E todos os tipos de nós também. Parecia gente nascida de todos os tipos de repolhos. E todos se respeitavam!
Mel decidiu viver ali. E foi feliz. Um dia, Kiko ensinou a Mel a desatar o nó do nariz. E Mel, agradecida, dividiu com ele suas borboletas!
domingo, 2 de setembro de 2012
Lua, Pó de Sono e Poesia no Centro Cultural São Paulo
A lua pinta a rua de prata
E, na mata, a lua parece
um biscoito de nata.
Quem será que esqueceu a lua acesa no céu? Foi você? Foi você?
Esta linda poesia faz parte da história que Alexandra Pericão, Tamara Elis e eu vamos contar no próximo sábado, dia 8, no Centro Cultural São Paulo. É um repertório que inclui história, música, poesia, brincadeiras e muito mais. Esperamos que todos gostem, porque nós nos divertimos muito na preparação desse trabalho. Será às 14h30, na Biblioteca Infanto-juvenil do Cento Cultural. Apareça lá !
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Doce sabor da transgressão
Delícia poder deixar de ser a responsável por tudo e sair aprontando. É o que a história abaixo, do livro "Sete Histórias pra Contar", de Adriana Falcão, nos permite fazer.
Por
que todo pai, coitado, tem que ter cara de pai, tem que usar roupa de pai, tem
que dizer frases de pai, tem que fazer tudo de pai, mesmo que esteja com
vontade de raspar a panela de brigadeiro?
Historinha ao Contrário
Esta
é uma história de pai e mãe.
Por
que todo pai, coitado, tem que ter cara de pai, tem que usar roupa de pai, tem
que dizer frases de pai, tem que fazer tudo de pai, mesmo que esteja com
vontade de raspar a panela de brigadeiro?
E
por que mãe tem que ser mãe o dia inteiro sem parar, para lá e para cá, toc,
toc, com aqueles sapatos de mãe, mesmo que esteja a fim de dar uma cambalhota? Ah,
não!
Um
dia, um pai e uma mãe resolveram fazer tudo ao contrário. O
pai fechou o jornal, a mãe abriu um sorriso e lá se foram os dois, pulando de
um pé só, tomar banho de chuva.
Dançaram
que nem dois doidos na praça.
Jogaram
muitas pedras nas poças.
Cataram
189 conchas na praia, sendo que 52 estavam esburacadas, 27 eram bastante
simpáticas, 18 eram bem bonitas e uma era linda de guardar!
Fizeram
castelos na areia enquanto argumentavam com as ondas que esse negócio de
derrubar castelo dos outros é uma falta de educação bem molhada.
Comeram
rosquinhas e estouraram os sacos.
Contaram
os carros que passavam: 876, 877, 879 e perderam a conta.
Discordaram
do Sol quando ele começou a se esconder do dia. Em seguida, porém, concordaram
que azul-escuro pode ser tão bonito quanto azul-celeste, ainda mais quando
aparece uma Lua no meio.
Procuraram,
em vão, discos voadores e estrelas cadentes. Só viram mesmo uma andorinha, a
quem fizeram um pedido, mas era segredo.
Acharam
graça de tudo.
Acharam
graça de nada.
Perderam
a hora.
Voltaram
caminhando só pelos desenhos pretos da calçada.
Apostaram
corrida até a esquina e ela ganhou (ou talvez ele tenha deixado que ela
ganhasse).
Chegaram
em casa felizes, suados, sujos e cansados. Para espanto dos três filhos, que
estavam esperando na janela e que logo perguntaram: Vocês podem explicar o que
aconteceu???
Como
eles não sabiam explicar, pediram uma licencinha e foram para a cozinha comer
cachorro-quente, com muita mostarda, maionese e ketchup.
Fizeram
uma bagunça danada na cozinha e nem limparam ...
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
Mágica de Geórgia
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Plantei um pé de estrela!
Trilhares com pés de estrelas
Escrevi Pé de Estrelas há um tempo. Até já postei aqui no blog. Mas, ao ouvir Trilhares, da Palavra Cantada, fui em busca deste miniconto. Experimente ler e depois ouvir a trilha, linda e delicada. Você pode fazer nesta ordem, ou vice-versa. Seja como for, para mim, é tempo de plantar estrelas ! Então aqui estão elas para ampliar a luz de nossas vidas.
Pé de estrela ! Quem plantou ?
Havia ventado tanto, que as emoções foram todas levadas junto com o vento. Emoções, segredos e histórias - aquelas contadas e não contadas.
Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos.
Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou.
E você sabe, né, vapor que sobe para o céu, tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva, tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.
Era tudo tão imprevisto, o caminho tão difícil, quase um sono sem sonhos.
Tinha até um castelo, mas que não dava para brincar.
E o desejo era tanto, tanto, que houve um dia em que aconteceu que tudo se evaporou.
E você sabe, né, vapor que sobe para o céu, tem essa história de virar nuvem e também da nuvem virar chuva...
Mas o certo foi que ali, ao invés de virar vapor, nuvem, chuva, tudo aquilo virou semente ...
Semente de estrela.
Que a gente plantou.
Vagarosamente...
E sem medo algum.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Enterrar nossos medos
Medo, medo, medo. Eita assunto que não cai de moda, principalmente em tempos de tantas asperezas da vida. Já faz algum tempo que alguém me pediu uma história que fizesse apaziguar o coração de outro alguém, que se corroía com seus medos. Hoje, encontrei a história, linda e cristalina para nosso conforto. Está em um livro de contos coletados por Rosane Pamplona, editado pela Brinque-Book, chamado Novas Histórias Antigas.
João Oleiro era um homem muito
medroso. Morria de medo de doenças, de ladrões e até de fantasmas. Ele tinha
muitas qualidades e gostava de trabalhar, fazendo com perfeição belos objetos
de barro, mas paralisava-o o medo de não vender o que produzisse, o medo de ser
roubado, o medo de ficar na miséria.
De tanto medo, quase não saía de casa e evitava amigos. Seus negócios, que já não íam muito bem, piores ficaram quando um outro oleiro instalou-se na cidade e roubou-lhe a pequena freguesia que lhe restava. João começou a fazer dívidas e aos poucos os fantasmas que temia passaram a tomar corpo na forma de credores que batiam à sua porta e o ameaçavam de prisão.
O homem que venceu o medo
João Oleiro era um homem muito
medroso. Morria de medo de doenças, de ladrões e até de fantasmas. Ele tinha
muitas qualidades e gostava de trabalhar, fazendo com perfeição belos objetos
de barro, mas paralisava-o o medo de não vender o que produzisse, o medo de ser
roubado, o medo de ficar na miséria.De tanto medo, quase não saía de casa e evitava amigos. Seus negócios, que já não íam muito bem, piores ficaram quando um outro oleiro instalou-se na cidade e roubou-lhe a pequena freguesia que lhe restava. João começou a fazer dívidas e aos poucos os fantasmas que temia passaram a tomar corpo na forma de credores que batiam à sua porta e o ameaçavam de prisão.
Desesperado, não vendo saída
para os seus problemas, João Oleiro resolveu matar-se... “Por que não?”, pensou
ele. “A vida para mim não vale mais nada. Não tenho amigos, não tenho
fregueses, não tenho dinheiro nem para comer. Está resolvido: vou me matar.”
Assim que decidiu isso, João
parou de se atormentar. Com a calma advinda do irremediável, ponderou que, já
que aquele seria seu último ato, deveria fazê-lo bem feito. Como não fosse nada
preguiçoso, resolveu primeiro fabricar um bom caixão para si mesmo. Lembrou-se
de ter visto um velho barco abandonado na beira do rio e, à noite, tomando
cuidado para não ser visto, foi buscá-lo.
Em casa, cortou a madeira e
passou o dia todo lixando, martelando, pintando. Já era tarde quando o caixão
ficou pronto; muito bem acabado, parecia obra de um mestre. Satisfeito consigo
mesmo, João resolveu comemorar. Esquecendo que já ninguém lhe vendia fiado,
entrou na taberna e pediu, todo cheio de si, uma caneca de cerveja. O
taberneiro, diante daquela pose confiante, não ousou recusar, porém ficou
intrigado: um homem naquela situação miserável rindo à toa? “Ali tem coisa”,
pensou. Um dos empregados da taberna lembrou-se de tê-lo visto em atitude
suspeita lá na beira do rio. – Talvez tenha encontrado algum tesouro – arriscou
ele ao patrão.
João bebeu sua cerveja e voltou
para casa. Muito contente, dormiu uma noite cheia de sonhos agradáveis.
Na manhã seguinte, acordou sentindo-se muito bem. Abriu as janelas de sua casa,
deixou o sol entrar e decidiu que poderia conceder-se três dias de prazo antes
de matar-se, pois queria aproveitar aquela sensação de bem-estar. E como o seu
coração estivesse leve, pegou um pouco de barro e pôs-se a modelar tudo o que
lhe vinha à imaginação, sem medo de censuras.
Trabalhou com gosto e no fim do
dia admirou com orgulho a sua produção: vasos e potes lindos, originais,
verdadeiras obras-primas.
Satisfeito, novamente João foi à
cidade comemorar, mal cabendo em si de felicidade. Seus amigos, estranhando
aquela atitude, resolveram, no dia seguinte, dar uma espiada em sua casa. E lá
dentro viram João, que trabalhava assobiando, rodeado de belíssimas peças de
barro. Um dos amigos resolveu entrar e oferecer um bom dinheiro por um
dos vasos. Outros logo o imitaram, e assim ele foi vendendo tudo o que
produzia.
No fim daqueles três dias, João
resolveu se permitir mais um prazo. “Afinal”, pensou, “sou eu quem vai morrer,
posso marcar o dia que quiser. Além disso, estou cheio de encomendas e não
quero decepcionar os amigos. Mais uma semana seria bom”, determinou e continuou
trabalhando feliz, criando arrojadas peças . Não demorou que seus objetos de
barro ganhassem fama. O outro oleiro, seu concorrente, não conseguiu segurar a
freguesia: todos só falavam nos inigualáveis vasos de João.
De bem com a vida, é claro que
João não pensou mais em morrer. Adiou indefinidamente aquela idéia e tratou de
aproveitar sua sorte. Foi ficando rico, pagou suas dívidas, casou-se com uma
boa moça e construiu para eles uma bela casa. No fundo da casa, num quartinho
fechado a chave, guardou o caixão que fabricara naquele dia de desespero. A
todos dizia que ali estava encerrado o segredo de sua prosperidade.
Só muitos anos mais tarde,
depois de uma longa vida venturosa, morreu João Oleiro. Abrindo o quarto
secreto, seus netos descobriram que o único segredo da felicidade daquele homem
foi ter sabido um dia enterrar o seu medo.
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